Saúde

Pesquisa inédita de médica baiana aponta que terapia neoadjuvante total reduz uso de colostomia em câncer colorretal

Pesquisa inédita de médica baiana aponta que terapia neoadjuvante total reduz uso de colostomia em câncer colorretal
Ana Virgínia Vilalva

Ana Virgínia Vilalva

22/01/2026 5:55pm

Foto: Divulgação / Drª Mônica Kalile

Estudo realizado pela oncologista baiana Mônica Kalile, na Fiocruz Bahia, aponta que a Terapia Neoadjuvante Total (TNT) reduz significativamente a necessidade de retirada do esfíncter anal e do uso permanente da colostomia em pacientes com câncer colorretal. Os resultados mostram que a abordagem apresenta taxas de resposta quase três vezes superiores às obtidas com tratamentos convencionais, além de reduzir em mais de 50% a indicação de colostomia definitiva.

A pesquisa foi apresentada no ASCO GI 2026 – Simpósio de Cânceres Gastrointestinais, um dos mais importantes encontros científicos mundiais em oncologia gastrointestinal, promovido pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), realizado entre os dias 8 e 10 de janeiro, em São Francisco, nos Estados Unidos.

Considerado um grave problema de saúde pública, o câncer colorretal é hoje o segundo tipo de tumor mais incidente entre homens e mulheres no Brasil, desconsiderando os cânceres de pele não melanoma. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o país registra mais de 45 mil novos casos por ano. Na Bahia, são estimados cerca de 1.940 novos diagnósticos anuais. Em escala global, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) projeta um aumento de 63% na incidência da doença até 2040.

Realizado em Salvador, o estudo comparou a Terapia Neoadjuvante Total com terapias convencionais em pacientes com adenocarcinoma de reto localmente avançado — tipo histológico responsável por mais de 90% dos casos de câncer colorretal. A pesquisa retrospectiva analisou dados de 137 pacientes tratados entre janeiro de 2019 e agosto de 2023 em dois centros oncológicos: o Núcleo de Oncologia da Bahia (Oncoclínicas) e o Hospital Santa Izabel.

Do total, 60 pacientes receberam TNT e 77 foram tratados com terapias não-TNT. Os resultados mostraram uma taxa de resposta clínica completa de 28,3% no grupo TNT, contra 11,6% no grupo convencional. Já a resposta patológica completa foi observada em 20% dos pacientes tratados com TNT, frente a 7,8% nos tratamentos tradicionais. Também foi identificada uma tendência de maior preservação do esfíncter anal nos casos de câncer de reto distal tratados com TNT, aproximadamente o dobro em relação ao grupo convencional. As taxas de toxicidade clínica e hematológica foram semelhantes entre os grupos, reforçando a segurança da abordagem.

“As taxas de resposta completa, tanto clínica quanto patológica, foram significativamente superiores no grupo tratado com a TNT”, destaca a oncologista Mônica Kalile. Segundo ela, os achados indicam que a estratégia pode reduzir a necessidade de ostomias definitivas, representando um avanço não apenas do ponto de vista clínico, mas também na qualidade de vida dos pacientes.

A pesquisa é resultado do trabalho de mestrado da médica na Fiocruz Bahia, sob orientação do pesquisador em Saúde Pública Carlos Teles e coorientação do oncologista e doutor em Ciências Bruno Protásio. Novos estudos, com maior número de participantes e acompanhamento prolongado, ainda são necessários para confirmar os resultados e avaliar o impacto na sobrevida global.

Destaque internacional

Intitulado “Impacto da Terapia Neoadjuvante Total (TNT) na resposta completa do câncer de reto localmente avançado: um estudo brasileiro”, o trabalho foi selecionado para apresentação no ASCO GI 2026, reforçando a relevância internacional da pesquisa desenvolvida na Bahia.

O que é a Terapia Neoadjuvante Total (TNT)

A TNT é uma estratégia terapêutica inovadora indicada para o tratamento do câncer retal localmente avançado. O método intensifica o tratamento antes da cirurgia, combinando quimioterapia sistêmica e quimiorradioterapia com o objetivo de reduzir o tamanho do tumor e possíveis metástases, aumentar as taxas de resposta, preservar o esfíncter anal, evitar a colostomia e melhorar a sobrevida. Estudos internacionais como OPRA, RAPIDO e PRODIGE 23 consolidaram a TNT como uma abordagem promissora nos últimos anos.

Câncer colorretal e estilo de vida

Associado a hábitos alimentares inadequados, sedentarismo, obesidade e tabagismo, o câncer colorretal é considerado uma doença relacionada ao estilo de vida. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo excessivo de carnes vermelhas, embutidos, ultraprocessados e alimentos ricos em gordura e açúcar aumenta o risco da doença. “O consumo de alimentos naturais e ricos em fibras é um fator de proteção. Descascar mais e desembrulhar menos é uma boa regra”, orienta Mônica Kalile.

Além disso, histórico familiar, inflamações intestinais crônicas e presença de pólipos intestinais também são fatores de risco importantes.

Rastreamento e prevenção

A maioria dos casos de câncer colorretal se origina a partir de pólipos intestinais, que podem ser identificados e removidos precocemente por meio da colonoscopia. A recomendação é que pessoas sem fatores de risco iniciem o exame entre os 45 e 50 anos, com repetição conforme orientação médica. Já indivíduos com histórico familiar ou fatores de risco devem iniciar o rastreamento mais cedo, garantindo diagnóstico precoce e maiores chances de cura.