Foto: Divulgação / Drª Mônica Kalile
Estudo realizado pela oncologista baiana Mônica Kalile, na Fiocruz Bahia, aponta que a Terapia Neoadjuvante Total (TNT) reduz significativamente a necessidade de retirada do esfíncter anal e do uso permanente da colostomia em pacientes com câncer colorretal. Os resultados mostram que a abordagem apresenta taxas de resposta quase três vezes superiores às obtidas com tratamentos convencionais, além de reduzir em mais de 50% a indicação de colostomia definitiva.
A pesquisa foi apresentada no ASCO GI 2026 – Simpósio de Cânceres Gastrointestinais, um dos mais importantes encontros científicos mundiais em oncologia gastrointestinal, promovido pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), realizado entre os dias 8 e 10 de janeiro, em São Francisco, nos Estados Unidos.
Considerado um grave problema de saúde pública, o câncer colorretal é hoje o segundo tipo de tumor mais incidente entre homens e mulheres no Brasil, desconsiderando os cânceres de pele não melanoma. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o país registra mais de 45 mil novos casos por ano. Na Bahia, são estimados cerca de 1.940 novos diagnósticos anuais. Em escala global, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) projeta um aumento de 63% na incidência da doença até 2040.
Realizado em Salvador, o estudo comparou a Terapia Neoadjuvante Total com terapias convencionais em pacientes com adenocarcinoma de reto localmente avançado — tipo histológico responsável por mais de 90% dos casos de câncer colorretal. A pesquisa retrospectiva analisou dados de 137 pacientes tratados entre janeiro de 2019 e agosto de 2023 em dois centros oncológicos: o Núcleo de Oncologia da Bahia (Oncoclínicas) e o Hospital Santa Izabel.
Do total, 60 pacientes receberam TNT e 77 foram tratados com terapias não-TNT. Os resultados mostraram uma taxa de resposta clínica completa de 28,3% no grupo TNT, contra 11,6% no grupo convencional. Já a resposta patológica completa foi observada em 20% dos pacientes tratados com TNT, frente a 7,8% nos tratamentos tradicionais. Também foi identificada uma tendência de maior preservação do esfíncter anal nos casos de câncer de reto distal tratados com TNT, aproximadamente o dobro em relação ao grupo convencional. As taxas de toxicidade clínica e hematológica foram semelhantes entre os grupos, reforçando a segurança da abordagem.
“As taxas de resposta completa, tanto clínica quanto patológica, foram significativamente superiores no grupo tratado com a TNT”, destaca a oncologista Mônica Kalile. Segundo ela, os achados indicam que a estratégia pode reduzir a necessidade de ostomias definitivas, representando um avanço não apenas do ponto de vista clínico, mas também na qualidade de vida dos pacientes.
A pesquisa é resultado do trabalho de mestrado da médica na Fiocruz Bahia, sob orientação do pesquisador em Saúde Pública Carlos Teles e coorientação do oncologista e doutor em Ciências Bruno Protásio. Novos estudos, com maior número de participantes e acompanhamento prolongado, ainda são necessários para confirmar os resultados e avaliar o impacto na sobrevida global.
Destaque internacional
Intitulado “Impacto da Terapia Neoadjuvante Total (TNT) na resposta completa do câncer de reto localmente avançado: um estudo brasileiro”, o trabalho foi selecionado para apresentação no ASCO GI 2026, reforçando a relevância internacional da pesquisa desenvolvida na Bahia.
O que é a Terapia Neoadjuvante Total (TNT)
A TNT é uma estratégia terapêutica inovadora indicada para o tratamento do câncer retal localmente avançado. O método intensifica o tratamento antes da cirurgia, combinando quimioterapia sistêmica e quimiorradioterapia com o objetivo de reduzir o tamanho do tumor e possíveis metástases, aumentar as taxas de resposta, preservar o esfíncter anal, evitar a colostomia e melhorar a sobrevida. Estudos internacionais como OPRA, RAPIDO e PRODIGE 23 consolidaram a TNT como uma abordagem promissora nos últimos anos.
Câncer colorretal e estilo de vida
Associado a hábitos alimentares inadequados, sedentarismo, obesidade e tabagismo, o câncer colorretal é considerado uma doença relacionada ao estilo de vida. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo excessivo de carnes vermelhas, embutidos, ultraprocessados e alimentos ricos em gordura e açúcar aumenta o risco da doença. “O consumo de alimentos naturais e ricos em fibras é um fator de proteção. Descascar mais e desembrulhar menos é uma boa regra”, orienta Mônica Kalile.
Além disso, histórico familiar, inflamações intestinais crônicas e presença de pólipos intestinais também são fatores de risco importantes.
Rastreamento e prevenção
A maioria dos casos de câncer colorretal se origina a partir de pólipos intestinais, que podem ser identificados e removidos precocemente por meio da colonoscopia. A recomendação é que pessoas sem fatores de risco iniciem o exame entre os 45 e 50 anos, com repetição conforme orientação médica. Já indivíduos com histórico familiar ou fatores de risco devem iniciar o rastreamento mais cedo, garantindo diagnóstico precoce e maiores chances de cura.