Saúde

Butantan inicia estudo com idosos para ampliar uso da vacina contra a dengue

Butantan inicia estudo com idosos para ampliar uso da vacina contra a dengue
Ana Virgínia Vilalva

Ana Virgínia Vilalva

14/01/2026 2:12pm

Foto: Butantan / Divulgação

O Instituto Butantan iniciou, nesta terça-feira (13), o recrutamento de 767 voluntários com idades entre 60 e 79 anos para uma nova fase de ensaios clínicos da vacina contra a dengue, a Butantan-DV. O estudo será realizado ao longo deste ano em centros de pesquisa localizados em Porto Alegre e Pelotas, no Rio Grande do Sul, e em Curitiba, no Paraná.

Além do grupo de idosos, o ensaio clínico contará com a participação de 230 adultos entre 40 e 59 anos, que atuarão como grupo de comparação. Ao todo, 997 voluntários, homens e mulheres, poderão participar da pesquisa, desde que estejam saudáveis ou apresentem comorbidades controladas.

Entre os idosos, haverá sorteio para definição dos grupos: 690 participantes receberão a vacina e 77 receberão placebo. Já os adultos de 40 a 59 anos receberão exclusivamente o imunizante, sem participação em grupo placebo.

Segundo o Instituto Butantan, o objetivo desta etapa é avaliar a segurança da vacina em pessoas acima de 60 anos e comparar a resposta imunológica desse público com a de adultos já acompanhados em estudos anteriores. A análise será feita por meio de testes laboratoriais que medem a produção de anticorpos.

O recrutamento tem início no Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre. Os interessados devem preencher um questionário para inscrição. Na sequência, o processo também ocorrerá em outros quatro centros: Hospital Moinhos de Vento e Núcleo de Pesquisa Clínica do Rio Grande do Sul (PUCRS), ambos na capital gaúcha; Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HEUFPEL/Ebserh), em Pelotas; e no Serviço de Infectologia e Controle de Infecção Hospitalar de Curitiba.

De acordo com a diretora médica do Instituto Butantan, Fernanda Boulos, a inclusão da população idosa no estudo é estratégica.
“A faixa etária acima de 60 anos está entre as mais impactadas pela morbidade da dengue. Por isso, é fundamental garantir que esse público possa se proteger com segurança por meio da vacinação. Esse é o principal objetivo deste estudo”, destacou.

O gestor médico de desenvolvimento clínico do Butantan, Érique Miranda, explica que o protocolo foi desenhado para facilitar a participação dos voluntários. A maioria dos participantes precisará comparecer ao centro de pesquisa em apenas quatro visitas ao longo do estudo.

“A primeira visita já é para a aplicação da vacina. Depois, há retornos em 22 dias, 42 dias e um ano após a vacinação, para coleta de sangue. Apenas 56 idosos farão visitas adicionais para exames de viremia. É um estudo enxuto, pensado para reduzir o impacto na rotina dos participantes”, afirmou.

Miranda também explicou que o Rio Grande do Sul e o Paraná foram escolhidos por apresentarem baixa prevalência de dengue, o que permite maior controle dos resultados. Estados com alta circulação do vírus, como Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte, chegaram a ser avaliados, mas a presença prévia de anticorpos poderia interferir nos dados do estudo.

A vacina Butantan-DV recebeu aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 26 de novembro de 2025 para uso na população de 12 a 59 anos. De dose única, o imunizante foi incorporado ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), e o Ministério da Saúde adquiriu 1,3 milhão de doses produzidas pelo instituto.

As primeiras doses serão destinadas a agentes de saúde e pessoas de até 59 anos, com ampliação gradual para outras faixas etárias até alcançar o público a partir dos 15 anos. Parte do lote começará a ser aplicada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a partir de 17 de janeiro, nos municípios de Maranguape (CE), Nova Lima (MG) e Botucatu (SP), como parte de uma estratégia de vacinação em massa.

Durante cerimônia realizada em dezembro do ano passado, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou que estudos indicam impacto significativo no controle da dengue quando entre 40% e 50% da população é vacinada. A proposta é acompanhar os efeitos da imunização nessas cidades ao longo de vários anos.

Os ensaios clínicos anteriores da Butantan-DV foram concluídos em junho de 2024 e apontaram 79,6% de eficácia geral contra a dengue sintomática, além de 89% de proteção contra casos graves e com sinais de alarme. No público de 12 a 59 anos, a eficácia foi de 74,7%, chegando a 91,6% nos casos graves.