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Quando passamos por três, cinco, dez unidades de uma mesma empresa em diferentes bairros, ambientes e formatos, é comum termos a ideia de que aquilo trata-se de uma rede com a robustez e a impessoalidade que, invariavelmente, passam a coexistir em operações de larga escala. Negócios, afinal, naturalmente tendem a padronizar-se para viabilizar crescimento – o que acaba por sacrificar fatores identitários mais característicos de iniciativas locais.
Com um crescimento de 80% no setor de bem-estar apenas nos últimos cinco anos, o Conselho Regional de Educação Física (CREF) estima que existem mais de quatro mil academias na Bahia, sendo que mais de 1.600 estão em Salvador, onde, segundo a Secretaria da Fazenda do estado, já existem mais academias do que farmácias.
Imagine, então, qual não foi a surpresa desta coluna ao tomar conhecimento que uma das mais conhecidas e frequentadas redes de academia de Salvador é um raro advento soteropolitano.
Com nada menos que 27 unidades entre Salvador e o interior baiano, a Rede Alpha Fitness acabou por se tornar um player importante deste cenário, geralmente dominado por marcas nacionais. A rede foi fundada em 1991 pelos médicos Robinson e Fátima Cardoso, ainda como a Academia Alto Astral, resumida em uma única unidade simples, com clássico estilo daquela década de 90 e focada no atendimento à comunidade do entorno do bairro da Vila Laura.
O próprio nome “Alto Astral”, quase que lúdico, dava indícios de que, naquela época, os médicos não tinham pretensões maiores do que atender bem àquele público regional. Era, tipicamente, uma academia de bairro – onde professores tornam-se amigos de alunos, e recepcionistas procuram saber o motivo de sua falta de frequência.

Acontece que, no início de abril, a Alpha convidou esta coluna para seu terceiro processo de rebranding, em comemoração aos 35 anos de fundação da primeira unidade. Neste meio tempo, a marca baiana passou de algumas dezenas para os quase 48 mil alunos e 750 funcionários – feito que atiçou minha curiosidade para uma conversa exclusiva com o atual CEO da companhia, Leandro Cardoso, filho de Robinson e Fátima.
O executivo conta que, para chegar aos números atuais, a família contou com algo que, até hoje, é um fator decisivo no desenvolvimento baiano: o acesso ao crédito. “É difícil você ter uma empresa que consegue crescer exclusivamente com capital próprio, principalmente neste curto período de tempo e quantidade de abertura de lojas. Um grande parceiro nosso até hoje é o Banco do Nordeste. Eles acreditaram no negócio, foi a mola propulsora para a gente partir para a nossa segunda unidade”, lembra.
O Banco do Nordeste alcançou sua melhor performance no ano passado, com R$ 34,8 bilhões em financiamentos apenas nos primeiros seis meses. Nos casos de setores altamente dependentes de capital, como o fitness, a instituição de fomento é um dos motores principais para a economia regional.
Mas, até aí, está tudo dentro do esperado. Para Leandro, o ponto que diferencia a Alpha de suas concorrentes – que são muitas, diga-se de passagem – é a cultura e a entrega do dia a dia das academias, especialmente na manutenção deste envolvimento comunitário. Coisa que, na visão do CEO, não se perdeu no meio do caminho.
“Um dos nossos pilares aqui é a entrega máxima que a gente tem para fazer. Todo o nosso time e toda a nossa operação é voltada a entregar o máximo que a gente pode para o nosso cliente. A cultura foi muito criada e enraizada nisso: não se contentar com o meio, com a metade do caminho e sempre ir além das expectativas”, avalia.
“Isso, junto com a auto entrega e com o nosso dia a dia, traz a sensação de pertencimento. É a verdade, é o que a gente vive, é o que a gente acredita, é um negócio de todos. Eu trago muito isso sobre como nosso time realmente pertence à empresa, acredita na cultura, acredita nos valores. Quando tudo está alinhado, é mais fácil”, completa Leandro Cardoso.
Com uma expectativa de chegar às 30 unidades ainda este ano entre Salvador, Aracaju, Irecê (BA) e uma outra cidade do interior baiano que ainda será divulgada, o executivo da Alpha conta que a implantação de cada uma das lojas custa entre R$2,5 e R$3 milhões. Para sustentar a expansão, a família abriu a operação a alguns sócios minoritários, mas descartou o modelo de franquias – justamente pelo receio desta capilaridade gerar perda da qualidade do atendimento e da força da cultura.
“A gente já fez um projeto [de franquias], mas desistimos. Chegamos a ir pro mercado, tivemos uma captação muito boa, só que a gente optou em não seguir, porque não é um negócio que qualquer operador consegue realizar. É uma questão de cultura muito forte. Então, a gente optou em não seguir com a franquia e sim somente com unidades próprias”, revela o CEO, que também afirma que as pretensões futuras da rede vão ser focadas no mercado nordestino: “vamos de estado a estado, começando por Sergipe”, detalha.

Quando instado a fazer uma comparação com a rede Smart Fit, por exemplo, Leandro diz operar em um nível de mercado acima da concorrente, cujo modelo de negócios é considerado low-cost. E essa diferenciação estaria, justamente, na preservação daquela identidade de negócio local sobre a qual escrevi no início do texto. “O que meus pais sempre fizeram é ter cuidado com as pessoas e cuidar das pessoas. Não falo só do atendimento. Falo cuidar das pessoas realmente. O cuidado ético, moral. Até hoje, eles são meus maiores mentores”, me disse o empresário.
É contando e conhecendo histórias como a da Alpha que vamos alterando a realidade cristalizada de uma Bahia que, infelizmente, ainda assiste passivamente a ideias e talentos serem obrigados a mudar de estado ou de país para conseguir vislumbrar o sucesso. O que trouxe aqui não foi meramente a entrevista de um CEO falando sobre sua empresa, mas sobretudo um exemplo que pode ser seguido com mais frequência.
*Matheus Pastori é jornalista especalizado em Branding e Conteúdo Digital. É membro do Conselho Editorial da Let's Go Bahia.