Fotos: Reprodução / Osvaldo Lyra
Se, hoje, a sigla para designar a comunidade LGBT tem mais de sete letras, há 17 anos era completamente habitual conhecer pessoas que não podiam, ou não conseguiam, expressar livremente qualquer outra orientação que fosse não a normativa. Ser gay no Brasil era algo tratado como uma espécie de problema a se resolver. Desde então, ao menos duas gerações se formaram; e os mais novos, felizmente, sequer vão chegar a ter ideia do que isso significava.
Quando recortamos Salvador nesta realidade, tudo se torna mais intenso. A primeira capital do Brasil só passou a ser exaltada amplamente por sua diversidade há muito pouco tempo – por mais contraditório que isso possa soar. Um lugar onde, mesmo depois dos anos 2000, era completamente aceitável ouvir dizer que conhecidos viajavam ao Rio ou a São Paulo para “se soltar”.
Com o passar dos anos, situações assim foram sendo problematizadas, superadas. Com isso, evoluímos.
Nos mesmos 17 anos atrás, José Augusto Vasconcellos e André Gagliano inauguravam a San Sebastian, boate localizada numa única casa colonial na orla do Largo da Mariquita. O lugar daria nome ao Grupo San Sebastian, companhia que, indiscutivelmente, tornou-se das mais bem-sucedidas no cenário empresarial recente do nosso estado.
“Se a gente olha pra trás, foi mesmo tudo muito espontâneo, entre amigos, dentro de casa, muito mais pelo desejo de criar um espaço seguro, livre e acolhedor para o público LGBTQIA+ do que por qualquer plano de negócio. Naquele momento, há mais de 10 anos, Salvador até tinha uma vida noturna já, mas carecia de ambientes estruturados, voltados especificamente para esse público”, lembra Zé Augusto.
Hoje dona de pelo menos 10 selos entre casas noturnas, festas, blocos e até uma plataforma de vendas, a San Sebastian nasceu, portanto, de uma aguçada visão empresarial. Algo que, também, vinha da sensibilidade que se espera de quem, querendo ou não, passou a acolher muita gente.
“Faltava um espaço que traduzisse isso com qualidade e com respeito. A gente não queria só abrir uma boate LGBT. A gente queria criar um ambiente onde esse público se visse representado de forma contemporânea, com música, estética e experiência alinhadas ao que já acontecia nos grandes centros” – afirma o empresário que, em pouco tempo, expandiu o portfólio para outras duas casas principais.
Em 2024, a marca passou a posicionar-se como holding, tendo sob seu guarda-chuva as casas de show SAN Boate, Mirante e Amsterdam; micaretas próprias em Salvador, Rio e São Paulo; eventos como San Island Weekend e Santé, além dos blocos carnavalescos Blow Out e O Vale. Todos, em alguma medida, são segmentados para o público LGBT.
Mas a cereja do bolo veio mesmo com o San Folia, plataforma de vendas de abadás que passou a ser o produto mais trabalhado pelo grupo.
“Talvez o mais desafiador tenha sido equilibrar crescimento com a essência que construímos. O Carnaval veio de forma muito natural. Salvador respira isso e nosso público também. Eu vim de Grêmio Estudantil, André [Gagliano] cresceu no meio do Carnaval. No começo, era quase uma extensão do que já fazíamos. Mas percebemos o potencial. O San Folia nasceu desse entendimento, de que tínhamos o respeito de um nicho para atingir marcas e produtos”, diz o diretor da companhia.
O investimento, claro, não foi por acaso. A BGC estima que, por ano, o chamado “pink money” – expressão que se refere ao consumo da comunidade LGBT - injete cerca de R$ 600 bilhões na economia brasileira. Os gastos preferidos são vestuário, produtos de beleza, turismo e entretenimento – especialmente shows, festas e festivais. Por outro lado, a Community Marketing & Insights aponta que 80% desses consumidores dão mais preferência a empresas que apoiam a comunidade, enquanto 65% esperam que as marcas estejam alinhadas aos seus valores.
Uma fatia desse bolo é da San Sebastian.
“A gente acredita que fez parte dessa construção. Quando você ocupa espaço, gera economia, movimenta turismo e cria experiências positivas, você também ajuda a mudar mentalidades. Não é só ser beneficiado, mas também ser agente dessa transformação”, resume Augusto, que apesar de não citar cifras exatas, crava: “o crescimento é consistente, tanto em faturamento quanto em investimento”.
Fato é que esses sócios não apostaram apenas em um nicho de mercado, mas na ocupação de um espaço historicamente negado, além da consequente evolução de uma mentalidade até então apequenada. No fim, o que se vê não é só o crescimento de uma empresa, mas o retrato de uma mudança social profunda que, hoje, já não admite volta.