Economia

Foz do Amazonas pode abrir novo ciclo de oportunidades para a indústria baiana, avalia especialista

Descoberta de hidrocarbonetos na Margem Equatorial pode criar nova fronteira offshore no país e movimentar setores como logística, construção naval, equipamentos e serviços especializados; Bahia pode disputar espaço nessa cadeia

Foz do Amazonas pode abrir novo ciclo de oportunidades para a indústria baiana, avalia especialista
João Costa

João Costa

30/09/2026 6:32pm

Foto: Divulgação

A identificação de hidrocarbonetos no bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas, pode representar mais do que uma nova perspectiva para a produção brasileira de petróleo. Caso os próximos estudos confirmem volumes comercialmente viáveis, o desenvolvimento da região poderá abrir um novo ciclo de investimentos na indústria offshore brasileira — com reflexos que podem chegar à Bahia.

A Petrobras confirmou em agosto a presença de hidrocarbonetos no poço exploratório Morpho, localizado em águas profundas do Amapá. A descoberta, entretanto, ainda está em fase de avaliação e será necessário determinar características dos reservatórios, volumes existentes e viabilidade econômica antes de qualquer definição sobre produção comercial.

Para a engenheira de petróleo Potiani Maciel, com mais de duas décadas de experiência no setor de óleo e gás, é justamente esse estágio que precisa ser observado com atenção.

“A principal relevância técnica está no potencial de a descoberta indicar um sistema petrolífero com capacidade de sustentar uma nova província produtora. Ainda é necessário avaliar volumes, características dos reservatórios e viabilidade econômica, mas a presença de hidrocarbonetos no FZA-M-59 reforça o potencial da Bacia da Foz do Amazonas”, explica.

Caso esse potencial seja confirmado, Potiani avalia que a região poderá assumir um papel estratégico para o país nas próximas décadas, complementando a produção do Pré-sal.

Nova fronteira exigirá infraestrutura

A experiência acumulada pelo Brasil no desenvolvimento de campos offshore coloca o país em uma posição tecnológica diferenciada. O Pré-sal exigiu soluções para operações complexas em águas profundas e ultraprofundas e ajudou a consolidar uma extensa cadeia de empresas especializadas.A Foz do Amazonas, entretanto, apresenta um novo conjunto de desafios.

“O Brasil é hoje um destaque mundial em operações offshore, com uma capacidade tecnológica construída principalmente a partir do desenvolvimento do Pré-sal. O desafio na Foz do Amazonas é que a região ainda não possui a infraestrutura necessária para suportar operações offshore de grande escala”, afirma Potiani.

Além das grandes profundidades e da distância da costa, uma eventual produção em larga escala exigiria estrutura logística, cadeia de suprimentos, mão de obra e serviços especializados.

Para a engenheira, isso significa que uma nova fronteira petrolífera não movimentaria apenas as empresas diretamente responsáveis pela exploração.

“A indústria offshore envolve uma cadeia enorme. Estamos falando de logística, embarcações, manutenção, construção e reparo naval, equipamentos, serviços de engenharia, tecnologia e profissionais especializados. É um movimento econômico que ultrapassa os limites geográficos de onde o petróleo é encontrado.”

Onde entra a Bahia

É justamente nesse cenário que a Bahia pode encontrar uma oportunidade.

O estado possui tradição na indústria de petróleo e gás, infraestrutura portuária e experiência acumulada em atividades industriais e marítimas. Para Potiani, esses ativos podem ser utilizados para inserir empresas baianas na cadeia de uma eventual expansão da Margem Equatorial.

“A abertura de uma nova fronteira offshore no Brasil pode gerar oportunidades relevantes não apenas para as regiões produtoras, mas para toda a cadeia de fornecedores e serviços. Para a Bahia, isso significa uma oportunidade de se posicionar nesse novo ciclo de investimentos, especialmente em segmentos como logística, construção e reparo naval, equipamentos e serviços especializados.”

Um dos ativos que podem participar desse movimento é o Estaleiro Enseada, localizado no Recôncavo Baiano. Segundo a especialista, estruturas desse porte podem ajudar o estado a disputar investimentos e contratos relacionados a uma futura expansão da atividade offshore brasileira.

Mas essa participação não será automática.

“A capacidade de oferecer infraestrutura, mão de obra qualificada e competitividade será determinante para que a Bahia dispute espaço com polos já consolidados, como Suape e Rio de Janeiro”, afirma Potiani.

Na avaliação da engenheira, portanto, o momento é de acompanhar a evolução exploratória da Bacia da Foz do Amazonas e, paralelamente, discutir como diferentes estados podem se preparar para uma eventual nova fase de investimentos.

“Se essa nova fronteira se confirmar comercialmente, não será apenas uma discussão sobre onde estará o próximo campo produtor. Será também uma discussão sobre onde estarão os fornecedores, os serviços, a logística e a infraestrutura capazes de atender essa indústria. E a Bahia tem ativos que podem colocá-la nessa disputa.”


Sobre Potiani Maciel

Potiani Maciel é engenheira de petróleo com mais de 20 anos de experiência na indústria de óleo e gás. Ao longo da carreira, acumulou experiência em operações offshore e embarcadas, completação de poços e tecnologias voltadas à otimização da produção, com passagem pela Petrobras e atuação em empresas globais do setor. Sua trajetória reúne conhecimento técnico da operação de campos de petróleo e acompanhamento das transformações tecnológicas da indústria, incluindo digitalização, automação e Inteligência Artificial aplicadas ao setor energético.