Assimetria S.A.
Foto: Divulgação A fachada filantrópica do ESG ruiu, e o que emerge dos escombros é um mecanismo de seleção competitiva que poucos tiveram a coragem de nomear...
(por Verônica Villas Bôas)
Ainda impactada com o filme O Diabo Veste Prada 2 que assisti ontem à tarde…
Me emocionei em vários momentos, porque me tocou em lugares muito pessoais da minha trajetória com a Let’s Go Bahia.
Guardadas as devidas proporções, foi impossível não me reconhecer em Miranda Priestly e Andy Sachs em alguns momentos daquele roteiro. Não por comparação, mas por identificação com escolhas, dúvidas e responsabilidades que fazem parte de quem conduz uma revista impressa em um mercado em transformação.
Ao observar essa dinâmica, fica claro que liderar exige movimentos diferentes ao mesmo tempo. De um lado, firmeza para sustentar decisões. Do outro, flexibilidade e sagacidade para perceber novos caminhos antes que se tornem óbvios. E isso, na prática, nunca é simples.
Existe uma pressão constante por resultado rápido, por números, por aquilo que chama atenção. E sim, esse caminho é sedutor. Viralizar seduz. É quase instintivo. Mas nem tudo que gera impacto imediato constrói algo que permanece.
Não se pode fazer escolhas na lógica do caça-níqueis, para não dizer caça-likes.
Essa percepção não vem de agora.
Quem acompanha a Let’s Go Bahia desde os tempos de Go Where Bahia, em 2008, até a revista sob minha direção desde 2017, sabe que houve uma mudança clara de rota a partir do meu retorno naquele ano. A proposta passou a ser outra. Um conteúdo mais denso, mais relevante, mais comprometido em ser lido e não apenas visto.
Não como ruptura com o que existia antes, mas como resposta a um novo momento de mercado e, também, a uma decisão ousada: ocupar o espaço deixado pela Gazeta Mercantil e fazer da Let’s Go Bahia uma revista que manteria seu DNA lifestyle, mas se transformaria em uma referência em business, finanças, tecnologia, inovação, sustentabilidade, geopolítica, saúde, educação e outras pautas mais densas, ampliando nosso alcance para um novo público que eu havia traçado como meta. E isso exigiu coragem, tomada de decisões e muita, muita persistência.
Vieram críticas e resistências internas. A equipe custou a entender o que eu estava mirando, e foram muitos os questionamentos:
“Está denso demais.”
“Ninguém vai ler.”
“É muito conteúdo.”
“O mundo está rápido demais para isso.”
Era natural a resistência. Eu entendia. Mas também entendia algo que, naquele momento, ainda não era tão evidente. A mesma velocidade que impulsiona o consumo também esvazia e, justamente por isso, abre espaço para aquilo que tem profundidade, consistência e propósito.
Apesar da resistência, dos questionamentos e até de algumas críticas, a equipe confiou e seguiu comigo. Segue até hoje. Quanto orgulho deles!
Meu primeiro grande desafio foi fazê-los entender que construir relevância não era algo de curto prazo. Era, acima de tudo, sobre sustentar visão. Porque esse tipo de construção quase nunca faz barulho. Ela acontece no detalhe, na consistência e com o tempo.
Eu sempre tive essa leitura de que o mercado é cíclico. As coisas vão e voltam. Diferentes, adaptadas, repaginadas, mas voltam. E sempre acreditei que as revistas impressas voltariam a ganhar tração. Tenho falado sobre isso há algum tempo aqui nas minhas redes sociais.
Ao longo da história, sempre disseram que certos meios iam desaparecer. Disseram que o rádio acabaria com a TV. Que a TV perderia espaço para o streaming. Assim como dizem (faz tempo), que as revistas acabariam com o digital.
Mas a verdade é que tudo que tem relevância encontra seu espaço.
Foi muito significativo para mim ver essa visão sendo validada por nomes que sempre foram referência. Em 2020, tive a oportunidade de entrevistar Washington Olivetto, e ele já falava sobre a força do impresso, especialmente em mercados como Londres, onde as revistas continuavam extremamente relevantes.
E, mais recentemente, ao ver o Nizan Guanaes reforçar essa mesma percepção, tive uma sensação muito clara: eu não estava sozinha.
“Vou bancar a aposta de que a revista impressa vai voltar com tudo. As pessoas adoram falar que a revista acabou… Não, a revista não acabou”, disse Nizan Guanaes.
Não se trata de voltar ao que era antes.Se trata de evoluir.
Existe um fortalecimento do impresso. Não como oposição ao digital, mas como complemento. Como espaço de profundidade em um cenário cada vez mais raso.
Num mundo de excesso de informação e de pós-verdade, o que é confiável ganha outro valor.
E é exatamente aqui que o filme passa a fazer ainda mais sentido para mim.
Em O Diabo Veste Prada 2, a virada da Runway não vem do óbvio. Não vem do superficial. Não vem do que gera mais barulho.
Ela vem quando o conteúdo ganha densidade. Quando há critério. Quando existe construção.
É essa mudança, conduzida pela visão da Andy Sachs, que reposiciona a revista, fortalece sua credibilidade e reafirma sua relevância. E é justamente a rápida percepção de Miranda Priestly diante disso, aliada à sua firmeza em sustentar essa decisão, que faz toda a diferença no desenrolar da história.
No filme, isso fica ainda mais claro em um ponto muito específico quando as pessoas começam a dar feedback para Andy e para Miranda Priestly sobre a qualidade dos conteúdos que estavam sendo produzidos. São, justamente, os mesmos conteúdos que antes, na visão de Miranda e do acionista da Runway, não geravam engajamento imediato nem se traduziam em números ou likes. Mas passam a ser reconhecidos por quem realmente importa. E é aí que muda tudo!
Não é mais sobre volume.
É sobre valor.
Não é mais sobre alcance.
É sobre relevância.
Miranda passa a perceber que aquele conteúdo não só fazia diferença, como também reposicionava a revista diante de um outro critério. Um critério mais exigente, mais qualificado e muito mais consistente do que aquele que ela vinha sendo pressionada a seguir.
E, inevitavelmente, eu me vi ali.
Me lembrei muito da minha trajetória com a Let’s Go Bahia. Dessa construção solitária (muitas vezes) e feita passo a passo.
De pessoas relevantes que não apenas passaram a valorizar o nosso conteúdo, mas que escolheram fazer parte dele.
Hoje, temos a honra de contar com colaboradores super qualificados, que escrevem para a revista e nos emprestam aquilo que têm de mais valioso: seu nome, seu legado e sua reputação.
Cada personagem de capa, cada entrevistado da seção aspas, cada perfil, cada colunista, cada articulista e cada fonte que aceita participar da revista está colocando nas nossas mãos o seu maior patrimônio. E isso só se constrói com reputação e credibilidade.
E foi vendo a Runway ganhar força ao conectar relevância com credibilidade e reputação de conteúdo que me senti ainda mais identificada com o filme.
Me emocionei, de verdade, em diversos momentos.
Não é sobre chamar atenção.
É sobre sustentar valor!
Hoje, ao olhar para a Let’s Go, vejo um caminho construído com essa lógica.
Um veículo que conquistou respeito, credibilidade e relevância. Que impacta pessoas de verdade, conta histórias que importam e abre espaço para trajetórias que inspiram!
Nada disso acontece rápido.
É diário.
É estratégico.
É construído passo a passo.
Saí do cinema com uma certeza ainda mais clara. Existem jornadas que se encontram na essência. A de quem escolhe fazer bem feito, com responsabilidade e visão de longo prazo, mesmo quando isso exige ir contra o fluxo.
E é isso que seguimos fazendo.
#issoéletsgo
📸 imagem gerada por IA
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