Assimetria S.A.
Foto: Divulgação A fachada filantrópica do ESG ruiu, e o que emerge dos escombros é um mecanismo de seleção competitiva que poucos tiveram a coragem de nomear...
Por Adriano Sampaio, CEO da Duplamente Inteligência de Mercado
Foto: Acervo Pessoal
Por um momento, esqueçamos a tecnologia em alta e a energia renovável. Há uma ameaça mais básica e constrangedora surgindo: a possibilidade de que em breve o problema não será o preço dos alimentos, mas sim a sua existência nas prateleiras.
Não é um cenário de filme de ficção científica, mas uma equação geopolítica simples e brutal. O Brasil, um gigante agrícola que alimenta cerca de 900 milhões de pessoas no mundo, precisa importar entre 80% e 90% de todos os fertilizantes que utiliza.
Em 2025, batemos um recorde histórico, comprando 45,5 milhões de toneladas de adubos do exterior. A situação do potássio é crítica: o país importa aproximadamente 95% do que consome.
Somos como um atleta olímpico que precisa pedir oxigênio emprestado para competir. Nossa força está em pernas emprestadas. E o pior é que os donos dessas pernas não estão mais dispostos a nos ajudar.
O fertilizante é uma arma geopolítica de primeira grandeza. A China, terceiro maior fornecedor do Brasil, impôs restrições severas à exportação. A Rússia, que detém 25,9% do mercado brasileiro, suspendeu as exportações do insumo.
O padrão é claro: cada Estado-nação está puxando o cobertor para o seu lado. A questão não é mais de aumento generalizado de preços, mas sim de colapso produtivo.
A guerra no Irã elevou o preço do fertilizante em 80%. A estimativa de que até 10 bilhões de refeições por semana poderiam deixar de ser produzidas não é alarmismo, é uma projeção matemática.
Sem a aplicação de nitrogênio, a produtividade das safras pode cair pela metade. E aqui reside a perversidade do problema: enquanto os países desenvolvidos conseguirão manter seu abastecimento, serão as regiões mais pobres que sentirão o impacto mais imediato e devastador.
A situação brasileira é uma contradição estratégica. Somos líderes mundiais na exportação de alimentos, mas dependemos de insumos controlados por meia dúzia de nações.
O Plano Nacional de Fertilizantes promete reduzir a dependência externa para 45-50% até 2050. Mas três décadas para resolver um problema diagnosticado há décadas é um prazo muito longo.
É hora de repensar o futuro alimentar. A realidade é que 62% dos novos alimentos embalados lançados no mercado brasileiro são ultraprocessados. O futuro alimentar que nos prometem é um paradoxo cruel: de um lado, substituiremos a biomassa natural de nossas lavouras por pílulas e impressoras 3D de comida; do outro, entupiremos as prateleiras com itens que geram epidemias de doenças crônicas.
A FAO alerta que precisaremos aumentar a produção de alimentos em até 70% para atender uma população que se aproxima de 10 bilhões. A pressão sobre os fertilizantes se multiplicará.
O Brasil ocupa uma posição surreal. Somos o maior importador mundial de fertilizantes. Nossos solos são quimicamente dependentes. O PNF promete reduzir nossa fragilidade, mas depende de investimentos que ainda não saíram do papel.
Surge a questão: se o Brasil é o provedor de 11% da alimentação mundial, mas depende de insumos controlados por meia dúzia de nações, quem realmente alimentará o mundo?
A narrativa dos fertilizantes é um lembrete desconfortável de que as civilizações não caem por falta de sofisticação, mas por terem se tornado sofisticadas demais para lembrar o óbvio: sem comida, não há PIB, não há balança comercial, não há inovação.
Foto: Divulgação A fachada filantrópica do ESG ruiu, e o que emerge dos escombros é um mecanismo de seleção competitiva que poucos tiveram a coragem de nomear...
Foto: Acervo Pessoal A engenharia do marketing político na Bahia revela um ecossistema com dinâmicas de investimento bem distintas das observadas no Sudeste. E...
Imagem gerada por IA O Caso Um restaurante no Distrito Federal cresceu, ultrapassou o limite de faturamento do Simples Nacional em agosto de 2012 e estava leg...