O Silêncio dos Números e a Surdez das Lideranças
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Por Adriano Sampaio, CEO da Duplamente Inteligência de Mercado
Foto: Acervo Pessoal
A engenharia do marketing político na Bahia revela um ecossistema com dinâmicas de investimento bem distintas das observadas no Sudeste. Enquanto nos grandes centros de São Paulo e do Rio de Janeiro a alocação de recursos em campanhas para deputado federal prioriza o impulsionamento digital amplo e a mobilização de marcas pessoais ligadas a causas nacionais, o cenário baiano exige uma distribuição de verbas cirúrgica e altamente territorializada. No Sudeste, as frentes de comunicação competem em um mercado saturado de narrativas ideológicas fluidas; já na Bahia, o planejamento de mídia divide-se de forma clara entre a consolidação de redutos municipais e a atração de nichos urbanos específicos, demandando estratégias de conversão de votos radicalmente diferentes.
No mercado eleitoral baiano, 74% dos deputados federais eleitos concentram suas campanhas no modelo municipalista de alta intensidade. Para esse bloco, o orçamento de marketing político é distribuído com precisão: aproximadamente 45% do teto de gastos são destinados à produção e veiculação de rádio e TV locais, veículos indispensáveis para a fixação de imagem no interior. O tráfego pago consome cerca de 25% dos recursos, mas é aplicado por meio de segmentação geotargetada por raio de CEP, limitando os anúncios às cidades onde o parlamentar possui parcerias com lideranças locais. Outros 20% abastecem o marketing de guerrilha offline, incluindo materiais impressos e identidade visual padronizada para comícios, restando 10% para ferramentas de monitoramento de dados e inteligência de mercado.
Nessa vertente focada em entregas regionais, as assessorias de nomes como Elmar Nascimento, Otto Filho, Antonio Brito, Diego Coronel e Neto Carletto estruturam campanhas baseadas na prestação de contas. A estratégia de conteúdo substitui o debate conceitual pela exibição de infraestrutura, utilizando vídeos curtos em plataformas como Instagram e Facebook para registrar a destinação de emendas e parcerias com prefeituras. O criativo de maior conversão de cliques e engajamento local consiste no registro de entregas de equipamentos públicos e convênios rodoviários. A linguagem visual desse bloco adota paletas institucionais e jingles em ritmos regionais, como o arrocha e o piseiro, aproximando a marca do candidato à realidade cultural de cada microrregião.
Por outro lado, o bloco composto por 26% da bancada eleita opera no marketing de afinidade e nicho corporativo. Esse grupo pulveriza seus investimentos para alcançar os grandes centros urbanos e a Região Metropolitana de Salvador. Aqui, a matriz de mídia inverte-se: o tráfego pago nas redes sociais absorve até 50% do orçamento disponível, focado em anúncios por interesse (pautas econômicas, religiosas ou trabalhistas) para gerar engajamento orgânico contínuo. A produção de conteúdo para canais de vídeo e cortes de alta performance consome 30% da verba, enquanto os 20% restantes cobrem despesas de mobilização pública e o horário eleitoral gratuito, usado para reforçar posicionamentos nacionais.
Os planejamentos de comunicação de Roberta Roma, Jorge Solla, Zé Neto e Márcio Marinho baseiam-se na identificação imediata com causas segmentadas. Paralelamente, lideranças tradicionais como Alice Portugal e Daniel Almeida direcionam suas mensagens a públicos específicos, como o funcionalismo público e os movimentos setoriais. O marketing dessas candidaturas utiliza paletas de cores associadas aos seus campos de atuação e símbolos de identificação coletiva. O fluxo de publicações explora debates institucionais na Câmara Federal e defesas de teses programáticas, convertendo o apoio a lideranças majoritárias nacionais em engajamento digital direto e atração de correntes de opinião específicas.
Diante de um mercado eleitoral tão técnico e segmentado, o desafio para os profissionais de comunicação reside na otimização dessas ferramentas para capturar a atenção de um público cada vez mais atento e diversificado. Compreender a exata proporção entre o investimento em canais tradicionais e a precisão do algoritmo é o que define o sucesso de uma marca política nas urnas baianas.
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