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Mounjaro no braço, prejuízo no caixa? o efeito borboleta que chegou ao turismo

Mounjaro no braço, prejuízo no caixa? o efeito borboleta que chegou ao turismo
Luiz Henrique do Amaral

Luiz Henrique do Amaral

12/02/2026 1:30pm

Imagem gerada por IA

Em 1961, Edward Lorenz arredondou um número de seis casas decimais para três numa simulação climática. Quando voltou do café, aquele arredondamento insignificante tinha gerado previsão completamente diferente. Nascia a Teoria do Caos e sua metáfora — o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um tornado no Texas. 

Lorenz não imaginava que décadas depois a teoria dele se aplicaria ao turismo gastronômico. Só que agora não é o bater de asas. É uma caneta de semaglutida utilizada por milhões de pessoas. E o tornado não está no Texas. Está no caixa do seu estabelecimento. 

Mounjaro, Ozempic, Wegovy. Três nomes que começaram tratando diabetes e viraram revolução do emagrecimento. No Brasil, 3,5 milhões já aplicam semanalmente — classes A e B, importante público consumidor do turismo gastronômico. Mercado de R$ 10 bilhões que deve explodir para R$ 50 bilhões até 2030. Mas março de 2026 muda tudo quando a patente expira e genéricos deverão apresentar uma oferta com preços mais acessíveis. 

Do consultório ao destino 

O efeito começa no consultório, mas se materializa a milhares de quilômetros. Passageiros mais leves economizam combustível para as companhias aéreas. Mas quando desembarcam no destino e entram no restaurante, a matemática inverte. 

PwC documentou com precisão. Quem utiliza essas canetas gasta 11% menos com alimentação e 9% menos com bebidas em viagens. Maioria para de beber álcool. Nos EUA, turismo responde por US$ 108 bilhões em restaurantes. Redução de 1% significa US$ 1 bilhão evaporado. Não é oscilação. É mudança estrutural. 

Goiânia sente com churrascarias reportando menos 30% no ticket. Três pratos viraram salada compartilhada. Movimento continua. Faturamento não. 

É o efeito borboleta em ação. Injeção em Copenhagen muda apetite de executivo paulista que, semanas depois, viaja para Caldas Novas e surpreende o garçom pedindo apenas salada no rodízio. Mesa fatura 70% menos. Multiplique por milhões de mesas. 

O paradoxo tributário 

Cornell e Galunion documentam a transformação. Usuários aumentam o consumo de proteína em mais 14% em frango e peixe, vegetais com mais 38%. Reduzem sobremesas menos 9% e álcool entre 23% e 66%. No buffet acontece o óbvio —  prato cheio de proteína grelhada e salada. Sem batata, sem sobremesa, sem cerveja. 

Reforma Tributária 2026 encontra esse novo comportamento de consumo apontando a necessidade de um novo ângulo de atenção para o empresário. Hortifrutigranjeiros in natura ganham alíquota zero. Proteínas frescas recebem tratamento favorecido. Mas bebidas alcoólicas, refrigerantes e ultraprocessados entram no Imposto Seletivo com alíquotas maiores. 

O paradoxo fica cristalino. O que cliente Mounjaro mais consome tem menor imposto. O que abandonou tinha sua maior margem e agora maior tributo. 

Matemática perversa no caixa. Vende mais salada isenta e menos cerveja tributada mais seletivo. Fatura menos. Mantém estrutura para consumo que não existe. 

Quem adapta sobrevive

 A rede Chipotle Mexican Grill lançou seu cardápio, High Protein Menu, o lançamento foi descrito pela própria empresa como “GLP-1 friendly”. Shake Shack oferece opções de hambúrguer sem pão (bunless), substituindo-o por folhas de alface, uma opção popularmente conhecida como lettuce wrap. La Pasta Gialla, em Salvador, trouxe as opções de meias-porções de volta. 

Mas estratégia real está na precificação. Cliente quer proteína? Cobre por isso. Salmão grelhado não pode custar o mesmo que batata frita. Salada de quinoa com frango não é acompanhamento — é prato principal com preço de prato principal. 

O tornado chegou 

Lorenz descobriu que pequenas mudanças geram consequências monumentais. Injeção semanal em milhões de braços criou o tornado redesenhando o turismo gastronômico. 

Cliente que pedia três pratos divide um. Mas paga se você oferecer proteína de qualidade, vegetais frescos, experiência memorável em porções menores. 

A Reforma Tributária pode favorecer quem jogar certo vendendo mais do que tem menor imposto, cobrando mais, reduzindo dependência do que tem maior carga e menor demanda. Novo turismo gastronômico não é fartura. É propósito. 

Mounjaro no braço virou prejuízo no caixa? O tornado chegou. Você não pode fingir que é brisa passageira.