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Dar valor é uma escolha. Ajudar é uma decisão. Ser parceiro é um posicionamento.

Quem você quer ser? Giver, taker ou matcher?

Dar valor é uma escolha. Ajudar é uma decisão. Ser parceiro é um posicionamento.
Verônica Villas Bôas

Verônica Villas Bôas

25/01/2026 2:43pm

Foto: Let's Go Bahia 


(Por Verônica Villas Bôas)

No universo empresarial, fala-se muito sobre networking, reputação e construção de valor. Menos frequente, porém, é a reflexão sobre a ética das trocas que sustentam essas relações ao longo do tempo.

Recentemente, navegando pelo LinkedIn, me deparei com um artigo inspirado no pensamento e nos estudos do psicólogo organizacional Adam Grant, que analisa os diferentes perfis de comportamento nas relações profissionais: givers, takers e matchers. A leitura foi direta e desconfortável, daquelas que não oferecem respostas prontas, mas nos obrigam a revisitar experiências, escolhas e vínculos. A partir dali, fui levada a outras leituras e reflexões que orbitam o mesmo eixo e que, de alguma forma, deram nome a algo que eu já sentia, mas ainda não havia organizado em palavras.

Sempre tive a convicção de que toda relação madura pressupõe equilíbrio. Não um cálculo frio, mas uma percepção clara de reciprocidade. Quando uma parte entrega mais do que recebe, enquanto a outra apenas consome, algo se rompe de forma lenta e silenciosa. Relações duráveis exigem troca real, não apenas discurso. Exigem escolhas, decisões e posicionamentos.

Ao ler Adam Grant, percebi que ele descreve exatamente esse fenômeno em seu estudo sobre givers, takers e matchers.

Os givers são aqueles que oferecem. Entregam tempo, atenção, conexões, apoio e energia sem exigir retorno imediato. Sustentam ambientes, fortalecem trajetórias e, muitas vezes, funcionam como vetores de crescimento coletivo. Em outras leituras sobre o tema, essa lógica aparece como base das relações sociais saudáveis: dar, receber e, em algum momento, retribuir. Quando essa última etapa desaparece, o vínculo perde densidade. Não é uma questão emocional. É estrutural.

Não sou nenhuma Madre Teresa, tampouco ingênua. Ainda assim, me identifiquei profundamente com esse lugar do giver. Abrir espaços, oferecer vitrine, conectar pessoas, acreditar em projetos e trajetórias sempre fez parte da forma como entendo a construção de ecossistemas fortes. Carrego comigo uma filosofia simples: se posso ajudar, por que não?

O problema, como fui percebendo ao longo do tempo, não está em ser giver, mas em permanecer nesse papel por tempo demais nas mesmas relações. Há momentos em que a maturidade exige desejar e construir o lugar do matcher.

Grant descreve ainda os takers, um perfil que opera sob a lógica da extração permanente. Recebem muito e repetidamente, mas raramente devolvem. Seja em forma de apoio concreto, incentivo ou parceria estruturada, a relação é unilateral. Confundem prestígio com gratuidade e acreditam que ser prestigiado significa nunca pagar, nunca apoiar, nunca investir.

Ao ler essa descrição, torna-se possível identificar padrões que se repetem em diferentes mercados e estágios de desenvolvimento. Em ambientes mais maduros, o prestígio tende a estar associado à capacidade de investir, apoiar e sustentar aquilo que se reconhece como relevante. A troca estruturada fortalece relações e contribui para a consolidação de ecossistemas mais sólidos.

Já em contextos onde a lógica da reciprocidade não se estabelece de forma consistente, prevalece a extração pontual de valor. Nesses casos, a ausência de relações equilibradas dificulta a consolidação do papel do matcher e limita o desenvolvimento de longo prazo.

Outras reflexões reforçam essa percepção ao mostrar que ecossistemas saudáveis dependem menos de genialidade individual e mais da qualidade das relações que os sustentam. Onde não há reciprocidade, há fragilidade. Onde tudo é unilateral, não há parceria. Há conveniência.

Entre os extremos do giver e do taker, Adam Grant aponta os matchers como o perfil mais equilibrado e sustentável. Matchers acreditam em reciprocidade. Não operam pela doação infinita, nem pela extração oportunista. Reconhecem valor, retribuem gestos e sustentam trocas justas. Ajudam, mas também sabem ser ajudados. Prestigiam quem caminha junto.

É nesse lugar que escolho estar. Ser matcher não é ser frio ou calculista. É ser consciente. É entender que ajudar é uma decisão, mas que ser parceiro é um posicionamento. Que amizade adulta se mede menos pelas palavras e mais pelas atitudes. Que relações maduras exigem coerência entre discurso e prática.

Ser giver não é uma sentença definitiva. Um giver se esgota quando se relaciona apenas com takers. Um taker, muitas vezes, sequer percebe o impacto da própria postura. E um matcher, cedo ou tarde, precisa rever escolhas para preservar o equilíbrio.

No fim, essa reflexão não é sobre dinheiro. Trata-se de valor. De reconhecer amizades e parcerias verdadeiras. De saber quem, de fato, caminha junto. De compreender que projetos não podem ser eternamente tratados como favores gratuitos, mas como estruturas que geram impacto, fortalecimento e desenvolvimento coletivo. Sustentá-los também é parte da responsabilidade de quem ocupa posições privilegiadas no mercado.

Talvez a maior provocação deixada por esse artigo, e por todas as leituras que vieram depois, seja simples e incômoda:

quem você gostaria de ser e quem você é, na prática, nas suas relações?

Giver, taker ou matcher?

Eu já sei quem sou, quem quero ser e, mais ainda, quem não quero ser.

E você?