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"Outro Atestado Médico?" (E Quem Paga a Conta é Sempre Você)

O custo social da mentira impressa: quando um atestado de R$ 30 custa bilhões ao país

"Outro Atestado Médico?" (E Quem Paga a Conta é Sempre Você)
Luiz Henrique do Amaral

Luiz Henrique do Amaral

04/02/2026 1:40pm

Imagem gerada por IA

Em Salvador, uma atendente de restaurante na Graça começou a apresentar atestados médicos. O primeiro parecia normal. Depois vieram outros. Ao longo de meses, foram sete no total. Um a afastou por dez dias.

O empresário aceitava. Pagava. Reorganizava a equipe. Até que um detalhe chamou atenção: erro de digitação no nome do médico. A empresa ligou para a UPA San Martin. A resposta foi direta: o profissional nunca trabalhou lá.

O médico confirmou a falsificação. Registrou boletim de ocorrência. A UPA investigou. Dos sete atestados, apenas um era verdadeiro. A funcionária sempre enviara fotos por mensagem.

Ela foi demitida por justa causa. Recorreu alegando estabilidade — estava grávida. A juíza da 25ª Vara do Trabalho negou. A 4ª Turma do TRT-BA confirmou por unanimidade. Sem verbas rescisórias. Sem FGTS. Sem aviso.

A decisão foi técnica: "A entrega de atestados comprovadamente falsos quebra a confiança necessária à continuidade do vínculo." Nem a gravidez salvou. Porque confiança, quando quebra, não tem conserto jurídico.

O Mercado da Mentira

Aquela funcionária não inventou o esquema. Ela comprou. Em Salvador, basta uma conversa por aplicativo. Atestado de um dia: R$ 30. De cinco a catorze dias: até R$ 100. O vendedor instrui: imprima, corte as bordas, amasse.

Segundo a Fecomércio-GO, 30% dos atestados emitidos no Brasil são falsos. Um terço da documentação médica circulando como se fosse legítima.

A Conta do Empresário

Não é só o dia perdido. É a substituição improvisada. Horas extras. Reorganização da equipe. Mas o custo maior não está na planilha. Está no clima. Quando um funcionário apresenta atestado falso e os outros sabem — e eles sempre sabem — algo se quebra. Quem ficou trabalhando se sente idiota. Quem fraudou se sente esperto.

O Rombo Nacional

Entre 2003 e 2019, fraudes à Previdência somaram R$ 5,5 bilhões. O INSS é pressionado. Dados sobre saúde dos trabalhadores ficam distorcidos. Políticas públicas são desenhadas com informações falsas. E quem paga? O contribuinte correto.

Enquanto você valida atestados duvidosos, o SUS perde tempo e recursos. A fila não anda porque parte dessa lotação é mentira impressa. Fraude ocupando leito, consumindo tempo médico, desviando recursos de quem realmente precisa.

Curitiba Cortou o Problema pela Metade

Existe solução: articulação institucional.

Curitiba lançou em outubro de 2025 a campanha "Atestado Responsável" — iniciativa que uniu Secretaria Municipal de Saúde, Conselho Regional de Medicina do Paraná, Secretaria de Estado da Saúde e Câmara de Vereadores.

Os números provam que funciona. Em seis semanas de campanha:

Antes (outubro-novembro 2024):

  • 94 mil atestados emitidos nas UPAs
  • 52% dos atendimentos viravam atestado

Depois (outubro-novembro 2025):

  • 53 mil atestados emitidos nas UPAs
  • 36% dos atendimentos viravam atestado

Resultado: queda de 43% na emissão de atestados. A campanha cortou pela metade a emissão desnecessária. Reduziu em 19% a procura pelas UPAs. Médicos relataram menos conflitos e mais segurança.

A iniciativa não proíbe. Educa. Estabelece critérios clínicos. Protege médicos de pressão. Conscientiza sobre uso responsável. Funciona porque é articulada. Institucional. Séria.

Um Chamamento Necessário

Enquanto Curitiba age, Salvador sangra. A máfia opera livremente. Restaurantes perdem dinheiro. Funcionários honestos perdem confiança. O SUS perde credibilidade.

É hora de agir com união institucional.

Este é um chamamento aos atores que podem mudar essa realidade: entidades empresariais do setor têm o conhecimento prático. A Câmara Municipal tem poder de fomentar debate. As secretarias de saúde detêm estrutura para programas educativos. O Conselho Regional de Medicina tem autoridade técnica. A Polícia Civil possui instrumentos legais.

Separados, cada um faz o que pode. Juntos, fazem o que precisa ser feito.

O exemplo está dado. A solução existe. Falta sentar à mesma mesa e construir para Salvador o que Curitiba construiu: sistema onde responsabilidade é compartilhada e fraude deixa de ser normalidade.

Falsificar atestado médico é crime. Artigo 297 do Código Penal. Pena: dois a seis anos. Apresentar atestado falso configura justa causa pelo artigo 482 da CLT.

A Conta que Não Para

Trinta por cento de atestados falsos. R$ 5,5 bilhões desviados. Mas há um número menor: os R$ 30 que alguém pagou para não trabalhar enquanto você suava no salão.

A atendente perdeu tudo. Mas a conta que deixou não sumiu. Continua sendo paga. Por você. Por mim. Por todos nós.

Curitiba mostrou que é possível. Agora é com Salvador.