Saúde

Solidariedade que corre nas veias: confira mudanças nas regras para doação de sangue

Mudanças nos critérios do Ministério da Saúde para doação entraram em vigor em outubro de 2026 e alteram prazos de impedimento para ampliar o número de pessoas aptas a doar.

Solidariedade que corre nas veias: confira mudanças nas regras para doação de sangue
Da Redação

Da Redação

27/10/2026 3:46pm

Foto: Joá Souza / Divulgação

Por Vagner Ferreira, colaboração para a Let's Go Bahia

Entre quem doa e quem recebe, há um gesto de solidariedade capaz de transformar vidas. Quando se trata de doação de sangue, esse ato ganha ainda mais significado. Essa atitude, nobre, une desconhecidos – seja quem estende o braço, seja quem depende da transfusão –, e oferece, a quem precisa, uma nova possibilidade de recomeço. 

Neste mês de outubro, entraram em vigor novas regras para doação de sangue no Brasil, com mudanças nos critérios e prazos. As atualizações (citadas ao longo do texto) contemplam quem fez tatuagens e procedimentos estéticos, cirurgias e tratamentos de saúde, além de permitir que doadores regulares com mais de 70 anos continuem contribuindo, desde que sejam considerados aptos na avaliação clínica. As mudanças têm como objetivo ampliar o número de pessoas aptas a doar, mantendo a segurança para o doador e o receptor.

A soteropolitana Gleice da Paixão Marques (A-), 47, conhece de perto a importância das transfusões. Durante sua trajetória, enfrentou episódios de anemia crônica e hemorragias, passou por diversas cirurgias e precisou receber bolsas de sangue como parte do tratamento.

As crises lhe provocaram sintomas intensos. “Eu não conseguia me levantar e tinha várias hemorragias. Às vezes, ficava tonta, desmaiava e me sentia muito fraca. Por isso, tenho que me alimentar bem e manter os cuidados. Tenho alergia ao ferro por via oral, ao sulfato ferroso, então preciso tomar a medicação na veia”, contou Gleice.

O quadro de saúde exigiu acompanhamentos médicos e procedimentos cirúrgicos. Ela precisou receber bolsas de sangue em diversas ocasiões, inclusive durante a gravidez. “Eu fui para o hospital, para a sala de emergência, e vi que estava precisando de sangue. Fiz os exames antes e tomei mais ou menos umas 20 bolsas de sangue”, relatou. 

Em outro momento, durante uma cirurgia para retirar um mioma, Gleice afirma ter recebido mais 30 bolsas. Depois, relata ter passado por outro procedimento, quando recebeu outras 25. As transfusões foram fundamentais para o atendimento em momentos delicados de sua vida.

Quem estende o braço

Para que as bolsas de sangue estejam disponíveis, é preciso que outras pessoas estejam dispostas a doar. Do outro lado dessa corrente está Hans Kolbe (O+), 59, administrador que conheceu de perto a necessidade da doação após um episódio familiar que lhe impactou.

"Quando eu tinha vinte e poucos anos, meu pai precisou fazer uma cirurgia e precisava de doadores. E assim como a maioria das pessoas, eu tinha medo e ficava assustado com aquela agulha imensa. Ainda assim, pensei em doar, mas soube que ele já tinha conseguido a bolsa de sangue, então fiquei aliviado porque não precisaria levar a agulhada”, lembrou. “No entanto, fiquei incomodado com aquilo. Pensava: ‘Estive com medo de doar sangue para o meu próprio pai. Eu devia ser o primeiro da fila’”, continuou. 

Anos se passaram e um pedido de doação no trabalho deu a Hans a oportunidade de agir de maneira diferente, e para ele, a experiência foi mais tranquila do que imaginava. “Saí com a satisfação de ter ajudado alguém e coloquei na cabeça: sempre que puder, vou ajudar”, conta.

Há cerca de 15 anos, ele mantém o compromisso com a doação. Durante esse período, notou que a disponibilidade de voluntários nem sempre acompanhava a demanda. “Eu percebia que, em determinadas épocas do ano, ficava cada vez mais difícil encontrar doadores. Nos períodos de festa, muita gente viaja ou bebe e não pode doar. Ao mesmo tempo, são épocas em que acontecem mais eventos e acidentes”, relatou.

O desafio da doação regular

Segundo a hematologista e coordenadora de Coleta da Fundação de Hematologia e Hemoterapia da Bahia (Hemoba), Aline Dórea, a doação é fundamental para atender as demandas e manter os estoques de hemocomponentes em níveis adequados. Como o sangue não pode ser produzido artificialmente, os serviços de saúde dependem de voluntários.

“No Brasil menos de 2% da população tem o hábito de fazer doação de sangue voluntária e regular, um número que está abaixo do que recomenda a OMS para que os serviços mantenham estoques de hemocomponentes em níveis satisfatórios. Por isso é essencial estimular essa prática em nossa população”, alertou a profissional.

Em 2026, a Bahia estabeleceu como meta captar 184 mil candidatos à doação voluntária de sangue e produzir 378 mil bolsas de hemocomponentes na rede estadual, conforme apontou a Programação Anual de Saúde da Bahia. Só no Carnaval, o Hemoba coletou 1.584 bolsas, um aumento de 375,7% em relação a 2025, quando foram registradas 333. A situação dos estoques, entretanto, continua exigindo atenção: na atualização de 22 de outubro, o tipo sanguíneo O+ estava em nível crítico, enquanto os outros sete tipos apareciam como estáveis. 

Para a hematologista, o maior desafio dos hemocentros é manter a regularidade das doações para garantir estoques suficientes dos diferentes hemocomponentes. Ela recomenda consultas ao site da Hemoba para acompanhar os estoques e ver as pendências de cada tipo sanguíneo.

Solidariedade que se transforma em hábito 

O publicitário Idalmo Silva Carmo (O+), 32, encontrou na própria experiência um motivo para se aproximar da doação. Ele sofreu um acidente de moto e, felizmente, não precisou receber sangue. No entanto, o contato com a realidade hospitalar lhe fez ficar atento à situação. “Eu vi como é a situação dentro do hospital, com o pessoal precisando muito de sangue. Isso me sensibilizou bastante”, contou. Desde então, passou a doar com frequência.

O interesse cresceu quando pessoas da família enfrentaram doenças oncológicas e precisaram de plaquetas. Idalmo procurou saber como funcionava o procedimento, passou a doar mensalmente e também se cadastrou no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). A rotina de doação se mantém há cerca de 11 anos. “Não custa nada, não dói. É uma coisa tão simples, mas que ajuda tanta gente”, afirmou.

A disposição de mobilizar outras pessoas também é o objetivo do eletrotécnico Jeconias Alves Santos (A+), 67. Ele começou a doar regularmente em 2001, após um amigo precisar de ajuda. Antes, havia feito doações em situações pontuais. Com o passar dos anos, o procedimento se tornou frequente. “O que mais me motiva a doar é saber que a vida de alguém pode melhorar ao se recuperar de determinadas doenças. Você pode proporcionar uma sobrevida. E é muito bom perceber que o sangue que corre em suas veias está servindo para melhorar a vida de outra pessoa”, disse, orgulhoso.

Ao longo de 2026, diferentes iniciativas estimularam a doação na Bahia. Em janeiro, a campanha Esporte Solidário: doando vida no verão, promovida pela Sudesb, pela Hemoba e por federações esportivas, mobilizou atletas e alunos de projetos esportivos em Pituaçu. Em fevereiro, a Polícia Civil reuniu cerca de 150 servidores em uma ação, enquanto a campanha Cantando Por Vidas promove apresentações mensais de corais na sede da Hemoba desde julho. A Fundação também ampliou as coletas externas em universidades, empresas, shoppings e instituições públicas, levando unidades móveis a locais de grande circulação.

Novas Regras: saiba o que muda

A ampliação também acontece com as novas regras do Ministério da Saúde, que entraram em vigor em outubro de 2026. Doadores regulares com mais de 70 anos podem continuar doando, desde que estejam aptos na avaliação clínica. O prazo de impedimento temporário após endoscopia e colonoscopia caiu de seis para quatro meses. Já após tatuagens, piercings, maquiagem definitiva e procedimentos estéticos, como botox, preenchimento e microagulhamento, é de sete dias, desde que cumpram normas sanitárias. Caso isso não haja comprovação, o prazo é de quatro meses, igual para piercings na boca ou na região genital.

As mudanças permitem que pessoas submetidas à cirurgia bariátrica doem após seis meses, se estiverem com o peso estável, e que pacientes curados de cânceres não hematológicos sejam reavaliados após cinco anos do fim do tratamento. O impedimento para quem teve relações sexuais com parceiros casuais caiu de 12 para quatro meses após o último contato. 

A hematologista Aline Dórea, afirma que a expectativa é ampliar o número de pessoas aptas sem comprometer a segurança transfusional. “Mais pessoas estarão aptas a fazer sua doação, e já temos observado um movimento de pessoas que anteriormente estariam inaptas, mas que tiveram redução do tempo de impedimento. Alguns doadores também, antes considerados inaptos definitivos, estão tendo sua condição de inaptidão reavaliada. Isso tem impacto, diminuindo a taxa de inaptidão clínica e permitindo uma melhora nos estoques de hemocomponentes nos diversos serviços”, explicou.

A flexibilização também foi anunciada pelas Testemunhas de Jeová, em setembro de 2026. A partir da mudança, cada fiel pode decidir, de acordo com a própria consciência, se aceita ou não doar glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma e plaquetas, conforme decisão anunciada pelo Corpo Governante da denominação. A transfusão de sangue total, no entanto, continua proibida pela religião, que fundamenta essa restrição em sua interpretação de passagens bíblicas que orientam os fiéis a se absterem de sangue.

O caminho do sangue até o paciente

Vale ressaltar que a importância da doação não termina no momento em que a bolsa é coletada. O sangue passa por processamento que permite separar diferentes componentes, como hemácias, plaquetas e plasma. Assim, uma mesma doação pode contribuir para atender necessidades clínicas distintas, de acordo com o componente indicado para cada paciente.

Pessoas com anemia, como é o caso de Gleice, podem precisar de concentrado de hemácias. Já pacientes com redução da contagem de plaquetas podem receber esse componente, enquanto alguns casos de sangramento associado a distúrbios da coagulação exigem plasma ou crioprecipitado, rico em proteínas envolvidas nesse processo. “A bolsa doada será centrifugada e, em seguida, fracionada nos diversos componentes do sangue. Dessa forma, cada paciente recebe apenas o hemocomponente de que precisa”, explica Aline Dórea.

O material também passa por análises laboratoriais antes de ser liberado para uso. “As amostras de sangue são encaminhadas aos laboratórios de sorologia e imuno-hematologia para realização da tipagem ABO e Rh e dos demais testes obrigatórios para prevenção de doenças transmissíveis através da transfusão, como HIV, HTLV, hepatites B e C, doença de Chagas, sífilis e malária”, explicou, por fim, a hematologista.