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“Gente é para brilhar, não para morrer de fome” - a trajetória de Arlene Vilpert

“Gente é para brilhar, não para morrer de fome” - a trajetória de Arlene Vilpert
Coluna Business Bahia

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02/04/2023 2:50pm

Percebi desde muito cedo que eu era diferente dos meus irmãos, eu não me conformava com a situação em que vivíamos e isso me causava desconforto. Assim começa minha saga. Nasci em 19 de julho de 1966 em Anitápolis/Santa Catarina, em um dia de muito frio, sendo a décima primeira filha de um casal humilde, porém muito guerreiro e de fé.

Recordo-me que todos os dias dormia no colo da minha mãe ao som da oração do terço. Foi essa sonoridade que marcou meus passos durante toda minha jornada. Aos 4 anos queria ir para escola, mas como morava no interior, tinha que andar a pé por sete quilômetros todos os dias para chegar lá. Foi então que percebi que a minha força de vontade para o aprendizado era maior que minhas pequenas perninhas.
 
Minha mãe, costureira, quase não tinha tempo para ficar com os filhos, mas no pouco tempo que lhe sobrava, ela nos ensinava sobre a vida e sempre afirmava que podemos nascer pobres, mas temos a opção de mudar o nosso destino. Basta ter coragem e fé. E foi através destas palavras que criei âncoras de fortalecimento dentro de mim para não parar nunca. Não por acaso, adoro dizer que sou IMPARÁVEL. 

Meu pai mal sabia ler e escrever, no entanto, sempre queria ser empresário e foi com ele que dei meus primeiros passos profissionais. Com 8 anos, estudava pela manhã e durante a tarde e à noite ajudava como garçonete no bar do meu pai. Lembro de noites frias em que queria ir para casa, mas tinha que ficar até altas horas, porque meu pai, como excelente comerciante, dizia que o bar só fecharia com a saída do último cliente e o cliente sempre tinha razão. Então, com esses ensinamentos de meu pai, vendo sua disciplina e o tanto  de trabalho empregado, fui modelando minha jornada inspirada em chegar mais longe.

Aos 14 anos, comecei o curso Técnico em Cerâmica no Colégio Maximiliano Gaidzinski em Cocal do Sul, a primeira escola brasileira de formação técnica neste segmento. Foi neste lugar que entendi o quanto era importante a dedicação total aos estudos e com apenas 17 anos, mesmo ainda estando em período de estágio, fui promovida à chefe de qualidade da Cerâmica Eliane. 

Neste dia, lembro que estava muito ansiosa, já que era tão jovem e havia que coordenar 11 mulheres mais que velhas que eu. Foi então, que minha mãe me acalmou dizendo: “Você acredita em você?”. E essa frase trago até hoje, afinal, só posso dar passos largos quando tenho a convicção de que acredito em mim mesma.

Terminado o curso técnico, com 19 anos, fui convidada para assumir a Gerência do Controle de Qualidade da Cerâmica Ceusa, em Urussanga-SC, e aceitei a proposta,  mudando de empresa com a certeza de crescimento financeiro e profissional. Nesta empresa, durante 14 anos, assumi vários cargos até chegar a diretoria - com muitas viagens internacionais para buscar inovação e tecnologia, e uma formação em Engenharia. 

A indústria de cerâmica era um segmento dominado por homens. As mulheres eram raras neste espaço. No entanto, com muita coragem, determinação e conhecimento, fui a primeira mulher no mundo a ser “diretora industrial de uma cerâmica”. Minha trajetória sempre foi guiada por seriedade, ética e amor ao próximo, e sou grata por ter sido criada com muito amor e fé, ainda que muitas vezes, faltasse o básico. 

Aos 33 anos, já com dois filhos, vivia um momento de conforto familiar e profissional. Nesse momento, recebi uma proposta para ser a diretora geral de uma indústria de tintas em Criciúma-SC. Com muitas incertezas, tomei a grande decisão de mudar de seguimento e recomeçar. Foi aí que pude sentir o desafio de sair da zona de esforço. Precisei estudar muito para entender melhor de negócios, fiz 4 MBA’s, além de inúmeros treinamentos sobre gestão empresarial. Com essas formações, me senti mais confiante e, durante os 8 anos na liderança dessa indústria, a tornamos reconhecida nacionalmente. 

A vida é cheia de surpresas, e em 2004, durante uma viagem a trabalho, conheci a Bahia, e foi aqui em Salvador que senti algo diferente, senti que Deus me chamava para cumprir uma missão. E foi em 2008, que resolvi investir em uma indústria de tintas imobiliárias aqui na Bahia, deixando para trás minha história em Santa Catarina, para reescrever uma nova aqui no Nordeste, pela primeira vez, como empresária. Vim apenas com meus dois filhos e com a obrigação de fazer dar certo. 

Hoje, após 15 anos nessa terra, penso que foi a coragem, a humildade, e meu poder de inspirar que me trouxe até aqui. Ser empresária em um local em que minhas referências profissionais não eram conhecidas, me fez sentir que estava começando do zero, com o desafio ainda maior por ser mulher. Sinceramente, às vezes penso que se não fosse a presença de Deus todos os dias, não teria conseguido sobreviver. 

Hoje, sou muito grata como empresária nesta terra por participar da Fieb (Federação das Indústrias do Estado da Bahia), onde fui diretora e hoje ocupo o lugar de Vice Presidente do Cieb/ Fieb, e vice coordenadora do comitê da construção civil. 

Aqui em Salvador-BA, conheci o reiki (terapia holística), o auto-conhecimento, a hipnose, o coaching, o PNL, e nos últimos 6 anos venho fortalecendo minha mente e meu espírito para poder superar todos os obstáculos em equilibrar vida profissional, familiar e social. Aqui, participo há 12 anos, de um grupo que ajuda pessoas em situação de rua, os “Amigos da Sopa”. 

Todavia, foi na pandemia que nasceu meu instituto de treinamento profissional “O Poder da Inspira+Ação” e meu primeiro projeto social: a ONG “A CASA DA MÃE”,  que é uma equipe que tem como propósito reformar casas de idosos em estado de vulnerabilidade. Nos últimos anos, além de empresária, atuo como terapeuta holística, palestrante motivacional e mentora. Deixo aqui uma lição que venho aprendendo a cada dia, “Faz bem fazer o bem”.  

Agradeço imensamente à Let’s Go Bahia e ao Business Bahia pelo carinho.