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Empreendedorismo feminino na cultura: mulheres transformam talento e vocação em negócio na Bahia

Empreendedorismo feminino na cultura: mulheres transformam talento e vocação em negócio na Bahia
Ana Virgínia Vilalva

Ana Virgínia Vilalva

14/03/2026 11:00am

Fotos: Reprodução

O empreendedorismo feminino vem crescendo no Brasil e ganhando cada vez mais espaço em diferentes setores da economia, incluindo a cultura e os serviços criativos. Dados do Sebrae indicam que, no quarto trimestre de 2023, as mulheres representavam 10,11 milhões (33,89%) dos empregadores ou trabalhadores por conta própria — formais e informais — no país.

Na Bahia, a presença feminina também se destaca. Segundo levantamento do Sebrae Bahia divulgado em 2026, cerca de 700 mil mulheres comandam empreendimentos no estado, evidenciando a força da participação feminina no desenvolvimento econômico local. A pesquisa aponta ainda crescimento de 6% no número de empreendedoras que migraram da categoria de microempreendedora individual para microempresária, sinalizando expansão e consolidação dos negócios liderados por mulheres.

Entre essas histórias está a de Mylane Mutti, formada em Música Popular com habilitação em voz cantada pela Universidade Federal da Bahia. Professora de canto desde 2011, ela é idealizadora e coordenadora da escola de canto Cantoário.

A ideia de criar a escola surgiu ainda durante a graduação, quando Mylane passou a ministrar oficinas e acompanhar de perto as dificuldades enfrentadas por quem ingressava no universo musical. A partir dessa experiência, percebeu que muitos estudantes desistiam pela falta de estímulo e de espaços que conectassem teoria e prática.

“Quando eu percebi que oferecer uma boa estrutura e qualidade no conteúdo exige estudo e formação constante, entendi que era necessário valorizar mais o meu trabalho e o processo envolvido em cada entrega. O empreendimento, na minha concepção, é a estrutura que sustenta boas ideias. Essas ideias, por sua vez, transformam vidas”, afirma Mylane.

A escola desenvolveu uma abordagem multidisciplinar para a formação de cantores, integrando música, dança, teatro e referências de diversas áreas artísticas, indo além do ensino tradicional da técnica vocal. O processo formativo também pode contar, de forma pontual, com a participação de profissionais de áreas complementares como psicologia, fonoaudiologia e fisioterapia, ampliando o cuidado com a saúde vocal e emocional dos estudantes.

Os desafios de empreender

Abrir e manter um negócio próprio envolve lidar com incertezas, tomar decisões estratégicas e assumir responsabilidades que vão muito além da execução do trabalho. Para muitos empreendedores, o início é marcado por um intenso processo de aprendizado.

“O desafio de todo microempreendedor é o conhecimento. Empreender demanda habilidades específicas que muitas vezes não aprendemos na formação tradicional. Isso me levou a erros na prática diária, como na precificação ou na comunicação”, relata Mylane Mutti.

Para ela, ampliar o acesso à informação e à formação empreendedora é essencial para fortalecer a presença feminina na economia criativa. “Quando as mulheres empreendem, o impacto social é significativo. Tenho certeza de que perderíamos muito enquanto sociedade se elas não ocupassem seus lugares no empreendedorismo”, afirma.

Conciliando empreendedorismo e maternidade

A realidade do empreendedorismo feminino também está presente em outras áreas profissionais. A advogada previdenciarista Jacqueline Reis é um exemplo de mulher que transformou a carreira jurídica em um empreendimento próprio, conciliando a gestão de um escritório com os desafios da maternidade.

Segundo dados do Sebrae Bahia de 2026, 41% das empreendedoras são chefes de domicílio, 65% são mães, 39% afirmam não ter apoio para cuidar da casa ou dos filhos e 50% relatam já ter sofrido algum tipo de preconceito.

Para Jacqueline, encontrar equilíbrio entre trabalho e família é um desafio constante. “Empreender exige muito tempo, dedicação e responsabilidade, mas também existe o desejo de estar presente na vida do meu filho, acompanhando o crescimento e construindo memórias significativas”, afirma.

Empreendedorismo como ferramenta de autonomia

Mais do que uma estratégia econômica, o empreendedorismo feminino também representa uma ferramenta de autonomia e transformação social. Para muitas mulheres, abrir um negócio significa conquistar independência financeira e ampliar as possibilidades de escolha sobre o próprio futuro.

“Debater o empreendedorismo feminino é fundamental porque ele garante autonomia e pode transformar realidades. Muitas vezes, quando uma mulher empreende, ela não está apenas criando um negócio, mas garantindo a estabilidade da própria família”, destaca Jacqueline Reis.

Na prática jurídica, a advogada observa que muitas mulheres que decidem empreender buscam orientação para estruturar suas atividades e lidar com questões relacionadas à segurança financeira e aos direitos sociais.

“Na prática, vejo mulheres que assumem múltiplos papéis ao mesmo tempo: empresária, mãe e responsável pela organização da casa. O desafio é conciliar tudo isso sem perder de vista as prioridades e valorizar os momentos que realmente importam”, conclui.