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Livro resgata memória das barracas que marcaram as festas de largo de Salvador

Livro resgata memória das barracas que marcaram as festas de largo de Salvador
Ana Virgínia Vilalva

Ana Virgínia Vilalva

09/03/2026 7:41pm

Fotos: Dimitri Ganzelevitch / Divulgação e Valéria Simões

As barracas das festas de largo sempre foram mais do que estruturas provisórias montadas para celebrar os santos do calendário baiano. Elas ajudaram a construir cenários, identidades e memórias afetivas de gerações em Salvador. Esse universo é revisitado no livro “Saudade daquelas Barracas – Longing for those Lovely Stalls”, de Dimitri Ganzelevitch, que reúne relatos, reflexões e imagens sobre um dos símbolos da cultura popular da cidade.

O lançamento acontece no dia 25 de março, às 17h, na Aliança Francesa.

Francês radicado em Salvador desde 1975, Ganzelevitch acompanha há cinco décadas as transformações das festas de largo. Na publicação, relembra a efervescência das celebrações entre as décadas de 1970 e 1990, período em que abriu uma galeria no Mercado Modelo e passou a observar de perto o impacto cultural e econômico desses eventos.

“Pouco após a minha instalação no Mercado Modelo, comecei a me interessar pelas festas de largo. Havia uma efervescência prazerosa na montagem das barracas, uma criatividade que tomava conta da cidade”, recorda o autor.

O livro destaca a estética das antigas barracas, que possuíam nomes próprios, fachadas elaboradas e forte vínculo afetivo com seus proprietários. Espaços como No Embalo, Carinhoso, Sultão das Matas, Iracema, Senhor dos Navegantes, Minha Vidinha, Top Model e Espigão tornaram-se parte da paisagem simbólica da cidade.

“Com o tempo, as coisas mudam. Têm mesmo que mudar. Mas não para pior”, afirma Ganzelevitch, ao comentar as transformações ocorridas nas festas nas últimas décadas.

A obra também aborda o processo de padronização que alterou o visual das festas e, segundo o autor, contribuiu para a perda de identidade desses espaços. “As barracas perderam sua beleza e a tradição que carregavam. Salvador perdeu uma parte de sua alma”, diz.

O livro propõe ainda uma reflexão sobre pertencimento, tradição e os impactos da mercantilização e da publicidade na paisagem cultural das festas populares.

Além dos textos de Ganzelevitch, a publicação reúne contribuições do antropólogo Ordep Serra, do arquiteto Wesley Pontes e da cordelista Gildete Virgins, ampliando o olhar sobre o fenômeno das festas de largo sob perspectivas social, urbana e simbólica.

O registro visual inclui fotografias de Marcel Gautherot, Voltaire Fraga, Pierre Verger, Louis Tardy, Maria-Helena Pereira da Silva, Valéria Simões, Lúcia Guanaes, Isabel Gouvêa, Ameris Paolini e Márcio Lima, além de três ilustrações de Carybé. A programação visual é assinada por Maria Helena Pereira da Silva.

Mais do que um resgate histórico, a obra se apresenta como um convite à reflexão sobre a preservação do patrimônio imaterial e da estética que ajudou a moldar a identidade cultural de Salvador.

Dimitri Ganzelevitch é francês e vive em Salvador desde maio de 1975. Sempre atuou no Centro Histórico da cidade, onde desenvolveu projetos culturais e manteve galerias no Pelourinho, na Ladeira da Barra e no Mercado Modelo. Também fundou a Associação dos Comerciantes do Mercado Modelo e atualmente mantém uma galeria no Santo Antônio Além do Carmo.