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Tarifa de 100% sobre açúcar orgânico nos EUA ameaça indústria local e afeta cadeia histórica com o Brasil

Entidade do setor estima impacto superior a US$ 85 milhões em custos adicionais e risco de aumento de preços ao consumidor

Tarifa de 100% sobre açúcar orgânico nos EUA ameaça indústria local e afeta cadeia histórica com o Brasil
Da Redação

Da Redação

24/01/2026 3:13pm

Foto Freepik 


A decisão do governo dos Estados Unidos de eliminar a Specialty Sugar Quota, mecanismo que permitia a importação de açúcar orgânico com tarifa reduzida, e de impor uma tarifa adicional de 50% sobre o produto importado acende um alerta na indústria americana de alimentos orgânicos e compromete uma cadeia de abastecimento construída ao longo de mais de três décadas com o Brasil.

Com a mudança, a tarifa total aplicada ao açúcar orgânico brasileiro que entra no mercado americano passa a chegar a 100%. Estudo da Organic Trade Association (OTA), entidade que representa a indústria de orgânicos nos Estados Unidos, aponta que a medida pode gerar mais de US$ 85 milhões em taxação adicional para o setor, pressionando custos de produção e, consequentemente, os preços ao consumidor.

Na prática, o impacto já é sentido. O açúcar orgânico utilizado pela indústria americana passou a custar cerca de US$ 1.350 por tonelada, enquanto o açúcar convencional produzido no país gira em torno de US$ 600 por tonelada. A diferença evidencia a disparidade entre dois produtos com sistemas produtivos e exigências regulatórias distintas. O Brasil é hoje o principal fornecedor externo do açúcar orgânico consumido nos Estados Unidos, sustentando uma cadeia agrícola dedicada, rastreável e estruturada para atender às exigências do selo USDA Organic.

A eliminação da cota especial desorganiza esse arranjo produtivo, afeta a previsibilidade das exportações e compromete investimentos realizados ao longo de décadas. Para Leontino Balbo Jr., vice-presidente da Native, uma das maiores produtoras globais de açúcar orgânico, a tarifa gera uma distorção relevante no funcionamento do mercado. Segundo ele, trata-se de um insumo estrutural, sem substituto, em um cenário em que a produção doméstica americana é insuficiente para atender à demanda.

A relação entre a indústria americana de orgânicos e o Brasil começou nos anos 1990, quando a limitação da oferta interna levou empresas dos Estados Unidos a buscar fornecedores internacionais. Em 1994, representantes do setor chegaram ao interior de São Paulo em busca de açúcar orgânico para atender a categorias em expansão, como iogurtes, cereais e sorvetes. A partir desse movimento, a Native iniciou a conversão de áreas agrícolas para o manejo orgânico e adaptou sua usina para produção exclusiva do insumo.

Em 1997, foi colhido o primeiro lote certificado, com 1.600 toneladas. No ano seguinte, a produção já havia dobrado. Ao longo das duas décadas seguintes, usinas brasileiras passaram a responder por cerca de metade de todo o açúcar orgânico utilizado pela indústria americana. No mesmo período, outros países reduziram ou não expandiram suas capacidades produtivas.

Além do impacto econômico, o cenário preocupa pelo efeito social. O modelo de produção de cana orgânica é intensivo em mão de obra e pode gerar até 20 vezes mais empregos do que o sistema convencional. A redução da demanda externa, segundo Balbo, pode provocar demissões em larga escala e desmontar uma cadeia construída ao longo de décadas.

A medida também expõe uma fragilidade diplomática. De acordo com o executivo, o açúcar orgânico não foi tratado de forma clara nas negociações comerciais recentes, que priorizaram produtos como carne, café e suco de laranja. A ausência do tema nas discussões amplia a incerteza para produtores e exportadores.

A decisão ocorre em um momento de crescimento acelerado do mercado de orgânicos nos Estados Unidos. Dados da OTA mostram que as vendas do setor cresceram 5,2% em 2024, mais que o dobro do mercado total, alcançando US$ 71,6 bilhões. Esse avanço, segundo a entidade, depende de um conjunto restrito de insumos regulados, entre eles o açúcar orgânico, considerado estrutural e sem substituto.

Empresas americanas do setor já sinalizam revisão de planos de expansão e reavaliação de investimentos diante da incerteza sobre fornecimento e custos. Para a Native, a política adotada cria uma contradição: um mercado em expansão passa a conviver com uma ruptura em sua base de insumos.

Do lado brasileiro, a instabilidade regulatória compromete decisões de investimento e a organização do sistema produtivo. Para Balbo, o impacto não se limita às fronteiras comerciais. Segundo ele, trata-se de uma distorção que atinge principalmente a própria indústria americana e pode ser corrigida com diálogo e esclarecimento por parte das autoridades envolvidas.