Enquanto o Carnaval de Salvador, maior festa popular do planeta, encanta o mundo com suas cores e multidões atrás do trio elétrico, um outro bloco atua nos bastidores — longe dos holofotes e perto da balança. São 14 cooperativas que garantem mais dignidade e segurança a cerca de 2.300 catadores de resíduos recicláveis durante a folia, enfrentando a exploração histórica dos atravessadores e promovendo pagamento justo pelo material coletado.
Entre elas está a CAEC, que paga R$ 8 por quilo da latinha recolhida, enquanto intermediários informais oferecem cerca de R$ 6. A diferença pode chegar a 80% a mais na renda final do trabalhador, considerando também a valorização de outros materiais como vidro, plástico, garrafas PET e papelão. O resultado é um impacto direto no bolso e na autoestima de quem vive da reciclagem — atividade que ajuda o Brasil a se manter, há 16 anos consecutivos, como líder mundial na reciclagem de alumínio.
“Quando o catador vende para o atravessador, ele fica vulnerável, recebe menos e não tem garantia nenhuma. Na cooperativa, ele recebe preço justo, acompanha o peso na balança digital, tem equipamentos de segurança e sabe exatamente quanto está ganhando. Isso muda tudo”, afirma Jacson Lemos Costa, técnico de logística da CAEC.
Fim da exploração e mais transparência
Um dos principais diferenciais das cooperativas é a transparência no pagamento. Todo material é pesado em balanças digitais, permitindo que o próprio catador acompanhe o valor em tempo real. A medida simples rompe com anos de desconfiança e perdas financeiras. Além disso, o material coletado segue diretamente para a indústria, eliminando intermediários e garantindo maior valor agregado ao trabalhador.
Impacto na renda e na autoestima
O cuidado começa com o respeito. Por meio das cooperativas, os catadores recebem Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como botas, luvas e fardamento, reduzindo riscos e fortalecendo o reconhecimento profissional. As 14 organizações também atuam em parceria com órgãos públicos e empresas privadas, que oferecem alimentação, locais para banho, apoio logístico e bonificação por produtividade.
Um exemplo é a meta que garante R$ 50 extras a cada 15 quilos de plástico ou PET coletados durante a festa — valor que pode ser acumulado várias vezes ao dia.
“Quando o catador está uniformizado, o folião não joga a latinha no chão. Ele entrega na mão. Isso é respeito. O uniforme transforma a forma como o trabalhador é visto”, destaca Costa.
Impacto social que vai além da folia
O alcance das cooperativas baianas ultrapassa a redução de resíduos enviados aos aterros sanitários e a diminuição da emissão de CO₂ durante o Carnaval. Para muitos catadores, o trabalho representa um recomeço.
Elielson Santos do Rosário, que atua no circuito Barra-Ondina, nas imediações do Cristo, resume a transformação: “Esse trabalho está me dando proteção e segurança. Meu sonho é sair da rua, alugar uma casa e reconstruir minha vida. Agora, com a cooperativa, acredito que isso é possível.”
Já Francislene Xavier, ambulante, encontrou na reciclagem uma renda complementar. “O pessoal bebe e coloca a latinha no saco pendurado no meu isopor. Eu trago aqui e faço uma renda que já ajuda no café, no almoço. Essas cooperativas ajudam muita gente”, afirma.
Em meio à música, aos trios e à multidão, são essas iniciativas que mostram que o Carnaval também pode ser palco de transformação social — onde a festa termina, mas a dignidade permanece.