Saúde

Anvisa autoriza início de testes de medicamento brasileiro para lesão na medula espinhal

Anvisa autoriza início de testes de medicamento brasileiro para lesão na medula espinhal
Ana Virgínia Vilalva

Ana Virgínia Vilalva

07/01/2026 2:45pm

Foto: Laboratório Cristália / Reprodução

Pacientes que sofreram lesão na medula espinhal e perderam os movimentos ganharam um novo motivo de esperança nesta segunda-feira (5). A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início dos testes clínicos de um medicamento 100% brasileiro, desenvolvido a partir de pesquisas conduzidas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O estudo teve início em 1997 e, há cerca de três anos, aguardava o aval da Anvisa para avançar à fase de testes em humanos. A autorização foi anunciada durante coletiva do Ministério da Saúde e representa um marco para a ciência nacional. “É o resultado de um trabalho de muitos anos, envolvendo uma equipe extensa, com universidade, empresa, profissionais de saúde, hospitais e fisioterapeutas”, destacou a pesquisadora Tatiana Sampaio, professora doutora da UFRJ e responsável pelo projeto.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também ressaltou a relevância da conquista. “É muito significativo termos um produto 100% nacional, desenvolvido em uma universidade pública”, afirmou.

Em setembro de 2025, a pesquisa ganhou destaque ao revelar a produção, em laboratório, da polilaminina — uma rede de proteínas que diminui no organismo ao longo da vida. Em estudos preliminares, a substância foi extraída de placentas e aplicada em oito pacientes paraplégicos e tetraplégicos. Os resultados indicaram a recriação de conexões entre neurônios, possibilitando a recuperação de movimentos em seis pacientes. Um deles, paralisado do ombro para baixo, voltou a andar sem auxílio.

Com a autorização da Anvisa, a polilaminina deixa o ambiente acadêmico e entra na primeira fase de testes clínicos para aprovação como medicamento. Nesta etapa inicial, o foco será avaliar a segurança da substância e possíveis reações adversas. Cinco pacientes com lesão completa da medula espinhal receberão uma única injeção de polilaminina até 48 horas após o trauma e serão acompanhados por um período de seis meses.

Caso não sejam identificadas reações adversas graves, o estudo avançará para as próximas fases, que irão avaliar a eficácia do tratamento na recuperação dos movimentos. Antes de se tornar um medicamento disponível ao público, a substância ainda precisa passar por três etapas de testes clínicos, sem prazo definido para conclusão.

“Acreditamos que estamos cada vez mais próximos de um tratamento efetivo. Nosso desejo é, no futuro, ampliar os estudos para pacientes com lesões crônicas, de meses ou anos. Isso vai depender dos resultados obtidos nas próximas fases”, explicou Tatiana Sampaio.