Economia

El Niño: fenômeno climático global pode afetar silvicultura baiana; cultura de algodão se prepara para impactos

Fenômeno considerado um dos mais intensos das últimas décadas pode afetar agro baiano

El Niño: fenômeno climático global pode afetar silvicultura baiana; cultura de algodão se prepara para impactos
Da Redação

Da Redação

25/09/2026 5:58pm

Por Vagner Ferreira, colaboração para a Let's Go Bahia

A Bahia deve enfrentar um El Niño de forte intensidade entre outubro e dezembro, com previsão de temperaturas acima da média e chuvas abaixo do esperado em parte do estado. O cenário coloca em alerta setores diretamente dependentes das condições climáticas, como a agricultura – com destaque para a produção de algodão –, os recursos hídricos, a silvicultura e o combate aos incêndios florestais.

Uma projeção publicada pelo Climate Impact Lab em setembro de 2026 aponta o Brasil entre os países mais afetados pelo fenômeno e estima aumento de 44% nos dias de calor extremo no país. Na Bahia, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê temperaturas acima da média em grande parte do Nordeste, cenário que pode intensificar a estiagem, aumentar a demanda por água e favorecer a ocorrência de incêndios florestais.

Também são esperadas chuvas abaixo da média em grande parte do estado, especialmente no MATOPIBA, região que inclui o oeste baiano. 

Algodão no radar

O meteorologista do Inmet Thiago Barros ressalta que ainda não é possível afirmar se o fenômeno provocará perdas ou uma quebra generalizada na safra do ‘ouro branco’ – matéria-prima que o Brasil lidera nas exportações, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). O oeste baiano, segundo ele, merece atenção pela importância agrícola da região e pelo início do período de implantação das culturas de verão.

A disponibilidade de água é fundamental para o estabelecimento e o desenvolvimento das lavouras de algodão, soja e milho. Barros explica que um período de deficiência hídrica pode reduzir o crescimento das plantas, aumentar a necessidade de irrigação e elevar os custos de produção. O impacto sobre a produtividade, porém, dependerá da duração e da intensidade do déficit hídrico e das condições de manejo adotadas pelos produtores.

Para a presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), Alessandra Zanotto Costa, o cenário exige acompanhamento das condições climáticas, mas não justifica mudanças antecipadas na estratégia de produção. O setor, segundo ela, monitora os riscos e deve manter atenção à janela de plantio.

“Para o Oeste da Bahia, o El Niño significa risco de chuva irregular e atrasada. Então, a primeira decisão é não atrasar o plantio esperando confirmação: respeitar a janela, ter o solo bem estruturado e com água armazenada antes do plantio. A segunda é escalonar variedades de ciclos diferentes e o plantio distribuído dentro da janela. Depois, vem o acompanhamento meteorológico e o controle rigoroso de pragas”, pontuou.

Alessandra destaca ainda que a capacidade de enfrentar uma eventual safra climaticamente adversa depende de planejamento e manejo. “A resposta ao clima é planejamento, tecnologia, manejo e gestão de risco combinados”, afirmou.

O setor também acompanha a pressão fitossanitária. Segundo a presidente da Abapa, “bicudo e mosca-branca continuam sendo riscos importantes e podem ganhar outra dinâmica conforme as condições climáticas”.

Alterações relevantes na produção podem repercutir ainda sobre a cadeia do agronegócio, envolvendo transporte, armazenagem, comércio de insumos e serviços. Para Barros, planejamento da época de plantio, manejo do solo, uso eficiente da irrigação e escolha de cultivares podem reduzir a vulnerabilidade das lavouras em condições climáticas adversas.

Como o El Niño age

O El Niño ocorre quando há aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, acompanhado de alterações na circulação atmosférica. Essas mudanças podem influenciar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do mundo.

No Nordeste brasileiro, porém, os efeitos do fenômeno não são automáticos. A resposta depende também da interação com o Oceano Atlântico e com sistemas atmosféricos regionais. “O fenômeno aumenta a probabilidade de certos padrões de chuva e temperatura, mas não determina sozinho o tempo de cada região”, explicou Barros.

O meteorologista destaca que o El Niño também não significa seca em todo o Nordeste. “Seus efeitos variam conforme a época do ano, a região e a interação com outros componentes do sistema climático, como o Oceano Atlântico e sistemas meteorológicos”, acrescentou.

Bahia se antecipa aos efeitos

A possibilidade de redução das chuvas e aumento das temperaturas também mobiliza os órgãos de proteção e defesa civil. O diretor da Defesa Civil Nacional, Armin Braun, afirma que um El Niño muito forte pode aumentar as situações de emergência relacionadas à estiagem e aos incêndios florestais. 

“Vamos ter redução das precipitações, das chuvas, com o aumento das situações de emergência relacionadas à estiagem e aos incêndios florestais”, afirmou.

Para Braun, a extensão territorial da Bahia e a população exposta à estiagem reforçam a necessidade de planejamento antecipado. “É um estado de grande extensão territorial, com uma área importante do semiárido e grande parte da população vivendo nessa região, o que gera necessidade de tomar ações emergenciais”, disse.

Na Bahia, a preparação vem sendo intensificada desde maio deste ano, conforme o superintendente da Defesa Civil do Estado, Osny Bomfim. As medidas consideram as características e necessidades de diferentes regiões. 

No oeste baiano, um dos principais alertas está relacionado à combinação de baixa umidade, ventos fortes e vegetação sob estresse hídrico. “Toda aquela região de Cerrado já tem enfrentado muitos problemas relacionados a baixa umidade e fica entre 12 a 20%, com ventos muito fortes. Então, há um estresse da vegetação, e temos visto muitos incêndios florestais acontecendo ali e precisamos evitar”, disse Bomfim.

A estiagem também preocupa a agricultura familiar. Segundo Braun, a Bahia tem quase 600 mil famílias nesse segmento, especialmente vulneráveis aos efeitos da falta de água.

Em relação aos incêndios em áreas plantadas, o Corpo de Bombeiros iniciou a preparação para o período de estiagem de forma antecipada, com planejamento que incluiu a antecipação da Operação Florestal. Também foram adotadas medidas de articulação entre órgãos estaduais, federais e municipais para preparar a resposta aos incêndios florestais. As prefeituras atuaram na formação de brigadas de voluntários, contribuindo para ampliar o efetivo disponível para o combate ao fogo.