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Lavagem do Bonfim: fé, sincretismo e a construção da identidade cultural baiana

Lavagem do Bonfim: fé, sincretismo e a construção da identidade cultural baiana
Verônica Villas Bôas

Verônica Villas Bôas

15/01/2026 10:00am

Fotos: Cláudio Colavolpe 

A Lavagem do Bonfim é uma das manifestações culturais e religiosas mais emblemáticas do Brasil e um dos maiores símbolos da identidade baiana. Realizada anualmente em Salvador, a celebração transcende o calendário litúrgico e o caráter festivo para se afirmar como um ritual carregado de memória, espiritualidade, resistência e pertencimento coletivo.

Sua história começa no século XVIII, pouco tempo após a inauguração da Igreja do Senhor do Bonfim, em 1754. Naquele contexto colonial, a limpeza do templo antes das festas religiosas era uma atividade prática, desempenhada por pessoas escravizadas. O que inicialmente tinha caráter funcional passou, com o tempo, a incorporar gestos simbólicos, cantos, rezas e elementos espirituais de origem africana, dando início a um dos rituais mais singulares do país.

A origem como ato de resistência cultural

Impedidos de praticar livremente suas religiões, os africanos escravizados e seus descendentes encontraram no catolicismo popular um espaço possível para preservar suas crenças. A lavagem, então, tornou-se uma linguagem simbólica de resistência. O ato de lavar com água ultrapassou a ideia de limpeza física e passou a representar purificação espiritual, renovação da fé e pedido de proteção.

Nesse contexto, a água assume um papel central. Utilizada com ervas, flores e perfumes — a chamada água de cheiro — ela carrega significados profundos ligados à cura, ao equilíbrio e à abertura de caminhos, elementos fundamentais das religiões de matriz africana.

O sincretismo religioso como fundamento

A Lavagem do Bonfim é um dos exemplos mais claros do sincretismo religioso brasileiro. No catolicismo, o Senhor do Bonfim representa Jesus Cristo, associado à misericórdia, à redenção e à esperança. Nas religiões afro-brasileiras, essa figura se conecta a Oxalá, orixá da criação, da paz, da sabedoria e da espiritualidade elevada.

Essa associação se manifesta em diversos símbolos do ritual:

    •    a predominância da cor branca, ligada a Oxalá;

    •    o uso da água e das ervas sagradas;

    •    a condução da cerimônia pelas baianas, guardiãs de saberes ancestrais e da tradição oral.

Mais do que uma simples fusão de crenças, o sincretismo presente na Lavagem do Bonfim representa uma estratégia histórica de preservação cultural e espiritual diante da opressão.

Da proibição ao reconhecimento público

Ao longo do século XX, a Lavagem do Bonfim atravessou períodos de tensão. Em determinados momentos, a Igreja Católica chegou a proibir a lavagem das escadarias, permitindo apenas a limpeza do interior do templo. Ainda assim, a manifestação resistiu, mantendo-se viva nas ruas, nos corpos e na memória do povo.

Com o passar do tempo, o ritual ganhou reconhecimento institucional e passou a ser compreendido como um patrimônio cultural imaterial da Bahia. Hoje, é um dos eventos mais emblemáticos do calendário cultural de Salvador, reunindo fiéis, moradores, artistas, intelectuais, lideranças religiosas e visitantes do Brasil e do mundo.

Representatividade e relevância na atualidade

Na contemporaneidade, a Lavagem do Bonfim preserva sua essência simbólica enquanto dialoga com o presente. É, ao mesmo tempo, manifestação de fé, celebração popular e ato político no sentido mais profundo: o de afirmar a presença, a história e a contribuição da cultura afro-brasileira na formação da sociedade.

O ritual continua sendo um espaço de convivência entre diferentes crenças, classes sociais e gerações. Em um mesmo cortejo, coexistem o sagrado e o profano, a devoção silenciosa e a alegria coletiva, a tradição ancestral e a cidade contemporânea.

Mais do que um evento religioso, a Lavagem do Bonfim é um retrato vivo da Bahia: plural, diversa, espiritual e profundamente conectada às suas raízes.

Um gesto simples, um significado eterno

Lavar as escadarias da Igreja do Bonfim é repetir um gesto ancestral que atravessa séculos. É reafirmar que fé, cultura e identidade caminham juntas. É lembrar que tradição não é algo estático, mas um processo vivo, que se reinventa sem perder sua essência.

Na Lavagem do Bonfim, a Bahia se reconhece, se celebra e se projeta para o futuro sem esquecer de onde