Opinião: Quando o jornalista ergue bandeira política, sua credibilidade vai a julgamento
Se a preferência ideológica antecede a notícia, até o fato verificável pode chegar ao público sob suspeita
Trata-se de um princípio fundamental. Até óbvio, eu diria. O jornalista, por natureza, deve - ou deveria ser - isento. Enquanto veiculador, enquanto publicador, enquanto aquele que reporta fatos, ele deve atuar com independência e equidade. Tal qual o juiz no exercício de julgar, tal qual o médico e o enfermeiro no cuidado com seus pacientes, o jornalista, no momento em que está imbuído do exercício da reportagem ou da análise, tem o dever de ler a realidade como ela se apresenta. Nua e crua.
Até os anos 1990 e início do novo milênio, havia, na maior parte das empresas e do público, a expectativa de que narradores, comentaristas e cronistas de futebol não declarassem apoio a este ou àquele time. Isso, hoje, mudou. Mas a mesma tolerância não pode ser automaticamente estendida à política. Quando o repórter — ou o jornalista em exercício de qualquer outro cargo — assume publicamente a bandeira A ou B, pode se enfraquecer aquilo que acredito ser de maior valor na palavra do comunicador: a presunção da isonomia, do tratamento equânime e da própria veracidade do que se expressa.
É verdade que existe o CPF e o CNPJ, a pessoa com e sem crachá. Mas, para quem lida com informação e com algo tão subjetivo quanto as nuances da credibilidade, essas dimensões se confundem. Mais importante do que isso: o público, para quem trabalhamos, nem sempre reconhece essa distinção. Ela é tênue demais para que se possa esperar esse escrutínio, sobretudo numa época de consumo rápido de conteúdo.
"Naquele momento, ele é o mensageiro. Ele é narração, não verbo. É a quem se confiou a fotografia daquilo que outros protagonizaram"
Por isso, existem situações em que juízes devem se declarar impedidos ou suspeitos. Na medicina, a proximidade com um paciente também pode comprometer a objetividade necessária a uma decisão. Uma sentença mal dada, uma decisão mal tomada e uma informação tendenciosa podem ser fatais ou profundamente prejudiciais.
O jornalista anuncia o placar do jogo da mesma maneira que informa o resultado da eleição. Reporta um fato, verificável, real, público e notório. Quando lhe cabe também a análise, vai além, examina e destrincha o fato - mas não subordina esse trabalho à vontade de favorecer um dos envolvidos. Porque, naquele momento, ele é o mensageiro. Ele é narração, não verbo. É a quem se confiou a fotografia daquilo que outros protagonizaram.
Em um tempo em que somos frequentemente assediados a declarar o voto — que é secreto por um motivo —, existe o perigo de tornar esta ou aquela publicação, jornal, programa, perfil ou conteúdo identificado com um dos lados de um Brasil dividido. Consequentemente, lá está o perigo de colocar sua credibilidade sob suspeita permanente diante do público.
A pessoa exerce sua ideologia na urna, no dia a dia, na sua rotina pessoal, naquilo que está sob seu comando. Mas o jornalista, enquanto incumbido deste título e deste papel, é sobretudo um observador atento que reporta fatos. Ele pergunta, confronta, investiga e analisa. Essa distância é o que o torna credível.
Ele é relator, não personagem. O enredo? A Deus pertence.
**Matheus Pastori é jornalista, estrategista, especialista em Branding e Conteúdo Digital. É membro do Conselho, Chefe de Redação da Let's Go Bahia e sócio-fundador da PASTORI Content House.